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Os grilhões da docilidade

novembro 22, 2014

Falei em outro post, há alguns meses, que faço aula de muay thai. Eu, gorda, com meus 80 e tantos quilos (francamente, hoje, não sei qual é meu peso), sou uma lutadora bem razoável, às vezes recebo até elogios dos mestres. Até uns mais inusitados tipo “você é uma carniceira!”

Muitas mulheres fazem aula junto comigo. Diria que no mínimo 70% das pessoas que estão na mesma turma que eu são mulheres. É bem aquele fenômeno de procurar atividades físicas alternativas à musculação e ergometria tradicionais das academias de ginástica para emagrecer e ficar com o corpo ~sarado~

(agora percebi que corpo sarado tá mais pra gíria idosa, mas eu não sei como os jovens se referem aos padrões de beleza atualmente, desculpem)

quer ficar sarada? não, obrigada, to de boa

Isso às vezes me torna um peixe fora d’água. Sabe aquele papo interminável de dietas? Nunca participo dele. Ou ainda quando querem te convencer de que um exercício pesadíssimo é bom: “pensa em como seu bumbum vai ficar durinho!”. Atualmente eu respondo esse tipo de coisa com “não estou aqui para ser miss, amiga, tô aqui pra dar porrada”. É sempre bom não tirar nossos próprios objetivos de vista mesmo com alguma pressão externa.

É realmente impensável que uma mulher gorda faça atividades físicas com outros objetivos além de emagrecer? Ou que eu realmente gosto do meu corpo pelo que ele é e faz? Que triste sina, a nossa, condenadas a odiar exatamente aquilo que torna nossa experiência no mundo possível.

E é engraçado como eu sou considerada “carniceira”, talvez porque eu não mostre a delicadeza que minhas colegas costumam mostrar. O que eu percebo em quase todas as mulheres que não estão acostumadas a lutar é sentir uma certa pena de machucar a outra pessoa com quem vc tá treinando. E isso não é errado, na verdade, porque ninguém está ali para se machucar e sair com um osso quebrado. Mas acho bem ruim que até praticando esportes de combate as mulheres tenham dificuldade para sair do lugar de fragilidade e docilidade que nos é relegado. Fico até um pouco triste quando as vejo assustadas na posição de se defender de um golpe ou morrendo de medo de machucar alguém. É como se as algemas do nosso gênero fossem indestrutíveis mesmo quando já estamos num papel que, em tese, nos obrigaria a sair dele.

Eu passei por isso também, mas superei essa pena inicial pois, como disse, não estou nessa vida para ser miss.

Pensei nessas questões neste momento em particular porque acabei de sair de um treino de defesa pessoal (dica para as meninas: façam). Calma, não tenho a menor intenção de usar os estrangulamentos que aprendi nem nada. Mas foi uma aula bem pesada, apesar de boa, e no momento estou com o punho cheio de hematomas. E eu os acho tão legais. São uma marca de que me dediquei hoje, assim como minha colega se dedicou, e que fiz algo satisfatório para mim.

Vejo outras marcas no meu corpo, algumas cicatrizes. E penso na capacidade maravilhosa do meu corpo de se regenerar e se curar. Assim como esses hematomas vão sumir, pois meu corpo vai dar um jeito de se recuperar. Cada marca dessas é um pedaço de uma história e de uma experiência única vivida pelo nosso corpo. No entanto, somos treinadas para odiar esse corpo e todas as marcas que ele carrega.

A quem serve um corpo sem história, padronizado, asséptico? Um corpo que não se mexe, que não aprende coisas novas, que não luta, não se diverte sem seguir inúmeras regras arbitrárias? A quem interessa que as mulheres tenham uma existência tão vazia?

Bom, não às próprias mulheres, é claro.

É por isso que sou feminista, pois acredito que é impossível ter uma existência plena enquanto estivermos aprisionadas ao nosso gênero. O gênero subalterno, frágil, dócil, irracional, aquele gênero que é ao mesmo tempo cuidador mas incapaz de mostrar autodeterminação, chegando a ser considerado legalmente incapaz pela legislação brasileira. Nós não temos absolutamente nada a perder nos libertando dos grilhões do gênero feminino, ao contrário, temos um mundo a ganhar (parafraseando um barbudo famoso).

Enquanto isso, vou ostentando hematomas ganhos em combate, cicatrizes das brincadeiras de infância que não deram muito certo (ou de tombos causados pelo álcool), manchinhas de sol que ganhei indo à praia ou fazendo campanha política durante horas em dias quentes. Não serei domesticada.

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From → feminismo

2 Comentários
  1. Acho que ter um corpo bonito para si mesmo é sim válido, mas não quando o usa para se exibir, independente de ser homem ou mulher. É bom se sentir bem consigo mesma. Olhar e se agradar do que vê. Quem não gosta? A questão é que as pessoas tentam rotular o que é mais belo aos olhos (porque são inflamadas pelo capitalismo/consumismo sem perceber), deixando a verdadeira beleza natural do ser humano de lado. É uma pena, pois sabemos o quanto isso traz sofrimento psicológico para aqueles que não estão nos “padrão”…

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