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O ódio de classe em um país de brancos

outubro 18, 2014

Meus planos para o segundo turno eram assistir a porradaria com os pés para o alto e comendo pipoca.

auto-explicativo

Infelizmente, o sangue badernista fala mais alto e eu sinto a necessidade de deixar meus dois tostões no meio de tanto absurdo que está rolando por aí.

Já deixei claro por aqui que sou militante do PSOL, filiada e tudo, e fiz campanha durante 3 meses. Não sou antipetista, no sentido que este é um posicionamento de direita e esvaziado de conteúdo político (“malditos petralhas!”); afinal, tenho argumentos para ser oposição de esquerda ao governo federal.

E é muito curioso observar esse anti-petismo que assola a sofrida classe média brasileira, porque ele resvala num delírio que seria exagerado até para os anos da guerra fria. Às vezes é assustador também, como quando um companheiro de partido é agredido aos gritos de “vai pra Cuba, comunista!” – que ocorreu na cidade de Niterói, na reta final do primeiro turno.

vai pra Cuba, comunOPA, péra

Vejam o último vídeo caça-cliques da TV folha para entenderem melhor sobre o que estou falando:

Eu não sei se começo a rir ou chorar de quem acha a sério que o governo federal é de esquerda. Ou, melhor ainda, comunista. A minha avaliação é que um governo de esquerda não pode fazer alianças com setores reacionários como os ruralistas encabeçados por Kátia Abreu e com o PP de Bolsonaro (que é um crítico feroz da presidenta, apesar de seu partido fazer parte da base do governo). Um governo de esquerda não pode derrubar uma iniciativa para combater a homofobia nas escolas (“Meu governo não faz propaganda de opção sexual”. ROUSSEFF, Dilma. 2011), governar em aliança com o PMDB do Cabral no Rio de Janeiro, ter um ministério da saúde que não garante o direito ao aborto previsto em lei e ter um ministério da justiça que oferece aos governos estaduais, inclusive o de SP, toda ajuda necessária para reprimir manifestantes. Não consigo imaginar um governo de esquerda colocando o exército no complexo da Maré, inaugurando um estado de exceção oficial por lá.

Espero que tenha ficado claro que esta é uma avaliação de uma militante socialista: minha avaliação do governo federal passa por fatores que a direita ou despreza ou ignora. A avaliação de um direitoso delirante passa por achar que uma política de distribuição de renda como o bolsa-família é socialista, ou que o Brasil caminha a passos largos para se tornar um país socialista como a Venezuela (!) ou Cuba (!). O PT, segundo os cidadãos de bem que apareçam no vídeo lá da folha, teria inventado a luta de classes e a miséria no Brasil, a divisão entre brancos e negros, nordestinos e paulistas…

auto-explicativo de novo

auto-explicativo de novo

Que socialista iria aumentar a participação do capital estrangeiro em um banco estatal? Que socialista reclamaria que o Brasil é um país capitalista sem capital? Se o bolivarianismo diz respeito ao bolsa-família, falta avisar que programas de distribuição de renda foram recomendações de órgãos como o Banco Mundial no final dos anos 90 e começo do milênio. O que o PT fez no governo federal foi uma verdadeira conciliação de classes: com a distribuição de renda e a cooptação de lideranças sindicais e de massas, arrefeceu alguns conflitos, mas não acabou com nenhum deles. No entanto, faltou dizer que uma política que agrada patrões e classe trabalhadora não pode durar muito tempo – daí alguns índices econômicos desfavoráveis e a perda de apoio popular ao governo PT.

Em 12 anos, o governo federal não tomou nenhuma medida que sequer pareça de longe com socialismo. E eu não sei se os anti-petistas raivosos não sabem disso ou se fingem de desentendidos. Não é possível achar que um país onde pessoas saem da miséria e CONSOMEM mais é socialista.

Sabemos que desde meados da década de 1990 o Banco Mundial e outros organismos multilaterais, avaliando os efeitos sociais desastrosos das políticas neoliberais, implementadas segundo suas orientações nos países periféricos, passaram a recomendar políticas sociais mais incisivas, porém aplicadas de forma focalizada.

Marcelo Badaró Mattos

O problema é que o debate político está tão raso que ninguém dá a esse anti-petismo raivoso o nome correto. E o PT está tão comprometido com os patrões que não pode politizar a discussão. Não pode dizer que o que está acontecendo é um acirramento do ódio de classes.

Não que a maioria dos petistas não saiba que se trata disso – os xingamentos ao Lula por ser nordestino e operário não nos deixam mentir. Só que a maioria prefere dar um viés partidário a isso e mascarar novamente o conflito de classes. Como eu falei, as agressões sofridas por militantes do PSOL no período eleitoral mostram que o ódio não se restringe ao PT.

O ódio é por tudo que tem origem e defende as lutas da classe trabalhadora. O ódio é pelo PT ter nascido e conduzido por muito tempo as lutas da classe, o ódio é pelo PSOL ser um dos partidos que reivindica e compõe estas lutas agora. O ódio é por vislumbrar a possibilidade de a classe trabalhadora se organizar e transformar a sociedade.

Para ilustrar a diferença, uso as palavras de um petista. Lula diz que o ódio é porque a patroa e a empregada doméstica são capazes de comprar os mesmos itens de consumo. Percebam: a idéia é construir um mundo onde todas as classes são capazes de obter os mesmos benefícios do capitalismo, não um mundo onde as opressões de classe não existem. Essa é a conciliação de classes petista, que não pretende acabar com a exploração, apenas amenizá-la.

Eu sei como é importante acabar com a fome e a miséria extrema, especialmente para quem sofre com elas na própria pele (e é por isso que não critico o voto no PT que tem esta motivação). Fome e miséria são a face mais cruel da exploração capitalista e elas só vão acabar quando o próprio capitalismo for destruído. A crise econômica nos EUA e nos países europeus mostra que a exploração amenizada tem data pra acabar: sempre quando há crise econômica, quem mais sofre é a classe trabalhadora, que perde seus empregos, suas casas, seu direito à aposentadoria. Tudo que foi conquistado com muita luta dentro dos marcos do capitalismo está fadado a desaparecer quando é a sobrevivência deste sistema que está em jogo.

Essa é a face mais patética desse anti-petismo: odiar um governo que promoveu a conciliação de classes e teve papel fundamental em evitar o acirramento da luta de classes.

E ainda dizem que as escolas estão cheias de professores comunistas…

Não poderia encerrar esse texto sem chamar atenção para o caráter ufanista desse ódio de classes. A direita sabe muito bem o poder de um discurso que suprime o conflito de classes em nome de “salvar a pátria” do espectro comunista (beijo, Karlaum Marx). Usar as cores da bandeira e cantar o hino nacional cabem direitinho nessa pátria de colonizadores brancos, dos heróicos bandeirantes, que essa galera defende. Um país que até hoje mata indígenas para garantir o desenvolvimento econômico, um país que condena a população negra à miséria e à violência, só pode ser o país dos colonizadores brancos. Isto, infelizmente, nunca correu o risco de acabar.

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