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A cilada Marina Silva

agosto 18, 2014

(Post escrito em Julho de 2013 com alterações feitas em Agosto de 2014 após a mudança provocada pela morte de Eduardo Campos)

Com as eleições de 2014 se aproximando, uma difícil pergunta fica no ar: em quem devo confiar meu voto no ano que vem? Pro governo do Rio e pro governo federal, o cenário das próximas eleições que vem se desenhando é sombrio.

Desde 2010, Marina Silva vem tentando se estabelecer como alternativa à presidência. E talvez ela até pareça uma escolha razoável, principalmente considerando todos os problemas do governo Dilma. Só que as aparências enganam. Neste texto, vou tenta provar que Marina Silva NÃO representa um projeto político diferente daqueles defendidos por Dilma Rousseff ou Aécio Neves e que, por isso, sua principal bandeira – o ambientalismo – não se sustenta.

É bom explicar primeiro a rejeição pela presidenta petista. Dilma Rousseff conseguiu, em apenas um mandato, retroceder em quase todas as discussões políticas que eu acho importantes. Passou com um trator por cima dos direitos indígenas, tem sido uma mãe para ruralistas e empreiteiras, entregou de bandeja os direitos LGBTs e das mulheres para a bancada teocrata estraçalhar; eu testemunhei seu desprezo pelos servidores federais em greve no ano de 2012, principalmente os professores (houve inclusive corte do ponto de diversos grevistas) e sofri na pele seu descaso frente à violência policial nas manifestações de Junho. Para garantir a copa do mundo, seu governo, através do ministério da justiça, equipou tropas das polícias militares, infiltrou gente da força nacional entre militantes do Rio e fingiu que não viu as prisões arbitrárias que ocorreram nesse estado. É um governo autoritário e que governa para empresários, não para a classe trabalhadora. Algo que era até bem previsível, na verdade, embora eu jamais pudesse desconfiar, em 2010, que o estrago seria tão grande.

Agora, praticamente todos os motivos que me impedem de votar na Dilma me impediriam de votar na Marina Silva. Não é segredo algum que Marina é uma conservadora, porém, é esperta a ponto de camuflar isso e parecer moderna ficando em cima do muro com suas propostas de plebiscitos para questões mais delicadas. E eu discordo radicalmente disso, pois acredito que direitos não devem ser objeto de plebiscito. Da mesma forma que é inaceitável fazer uma consulta popular para discutir, por exemplo, a legalização da tortura como método de interrogatório: isso é algo inaceitável, uma violação de direitos humanos. Não é discutível. Ou seja, um direito não deve depender da opinião da maioria para existir. Propor um plebiscito sobre direitos LGBTs e direitos reprodutivos é uma maneira de ficar em cima do muro e ter a certeza de que o lado que você apóia vai ganhar, já que a população brasileira é bem conservadora e não votaria a favor de nada disso. E é claro que quem propõe esse tipo de coisa é contra o casamento igualitário e a descriminalização do aborto: quem é a favor simplesmente diz que é. E luta para conquistar esses direitos. Ou seja, por ser mais hábil politicamente e conseguir se cobrir de um verniz mequetrefe de inovação, Marina é mais do mesmo.

Neste aspecto, portanto, Dilma e Marina estão empatadas. Não sei a opinião pessoal da Dilma sobre estas questões. Mas seu governo, até agora, sambou na cara de toda militância LGBT e feminista. E é só disso que preciso saber.

Em relação a outros pontos que citei lá em cima, como a conivência com a violência policial (principalmente nas manifestações de junho de 2013), intransigência com trabalhadores em greve e pouco diálogo com a base, não faço idéia de como Marina poderia ser pior que Dilma. Mesmo. No entanto, não daria o benefício da dúvida para Marina por um motivo muito simples: as duas governariam para as mesmas pessoas. Marina passou anos dentro do governo Lula, tendo plena consciência de que ele governou para as mesmas pessoas que Dilma governa hoje. Não tenham dúvidas de que Marina tomaria atitudes autoritárias se disso dependesse a estabilidade de seu governo e a continuidade de um projeto de poder ao qual serviram os governos PSDB e PT (e serviria um governo PSB/Rede).

Vejam só que singelo este trecho de uma publicação do gabinete de Marina quando ela era senadora e que ilustra isso muito bem:

“Foi-se o tempo em que a ‘turma do Chico Mendes’ e empresários – principalmente madeireiros – eram como água e óleo. As coisas amadureceram nos últimos 15 anos, o mundo girou, o Acre está mudando, a ‘turma do Chico’ chegou ao poder e pôde concretizar suas ideias. Aplacaram-se radicalismos. Viu-se que é possível negociar diferentes interesses com ética e conhecimento técnico. (…) Por incrível que pareça, há madeireiros, pecuaristas e petistas sentados à mesma mesa.”

Para quem tem dúvida, foi justamente essa história de “conciliar interesses” que levou o PT a ser o que é hoje. Marina, à época desta publicação era senadora petista – e não fez sequer uma objeção quanto a essa política conciliatória, pelo contrário. Falar de “aplacar radicalismo” como se isso fosse algo positivo. Não ir à raiz do problema (ou seja, ser radical) é justamente o que mantém as coisas funcionando sem mudar nada de forma concreta. É por conta de suas políticas de conciliação de que classes que o PT consegue manter uma fachada de partido dos trabalhadores, ao mesmo tempo que os bancos têm lucros recordes praticamente todos os anos. Mas nem sempre essa conciliação é possível. Quando isso ocorre, temos visto que os interesses dos grandes empresários sempre prevalece: basta ver que Dilma vetou um projeto de lei que garantia a igualdade de salários entre homens e mulheres nas mesmas funções sob o argumento de que seria impossível para o empresariado bancar isso. Ou, em níveis ainda mais extremos, todas as arbitrariedades e violações de direitos de populações indígenas e da periferia de cidades que sediaram grandes eventos. Garantir essas grandes obras a qualquer custo nada mais é que um compromisso com a classe que colocou o PT no poder através de financiamento de campanhas, por exemplo.

Chegamos então à outra bandeira de Marina Silva que eu considero problemática: o ambientalismo. Como se vê, Marina quer construir políticas ambientalistas que agradem não só à classe trabalhadora e aos povos que vivem das florestas, mas também madeireiras e empreiteiras. E isso é impossível. Quem diz o contrário, só pode estar mentindo.

E a Marina sabe muito bem disso. É por isso que seu discurso é tão em cima do muro, tão MODERADO. Porque ela sabe que seu projeto de poder em nada difere do projeto tucano ou petista, mas ela consegue construir uma fachada verde tanto por conta de seu histórico e quanto por seu discurso de “não ser nem de direita, nem de esquerda”. Esperta, ela sabe que muita gente repudia a direita identificada como PSDB, bem como a esquerda identificada como PT. No entanto, o que muita gente não percebe é que os dois partidos servem aos mesmos interesses – e é por isso que tanta gente os percebe como iguais (embora eu discorde dessa avaliação). Fugindo do espectro da esquerda e da direita, Marina consegue criar a ilusão de que é diferente. De que é possível fazer política em cima do muro.

Aí a gente cai naquela velha discussão: política é direita ou esquerda. Claro que classificar espectros tão amplos em duas únicas palavras é complicado, mas na política a gente não foge muito disso. Fazer política é se posicionar. Posicionar-se é ir pra um lado ou outro da coisa. E não se enganem: ficar em cima do muro é se posicionar também, mesmo que de maneira envergonhada. Mas, adivinhem só: não é a esquerda que tem medo de se posicionar.

Marina tem sido esperta ao fazer isso, pois quer ganhar aquelas pessoas que não se identificam nem com PT, nem com PSDB, mas acham que eles são representantes de ideologias políticas opostas. Não são.  Duvidam? Busquem as declarações do presidente do Itaú (que teve lucro recorde no primeiro semestre de 2013) sobre o Lula e as declarações da senadora Kátia Abreu, líder ruralista no Congresso, sobre a Dilma (Kátia, inclusive, se filiou ao pmdb e incorporou-se de vez à base aliada).

E eu entendo que a Marina cai no mesmo erro. Porque você não pode defender o ambientalismo sem enfrentar setores do grande capital. É por causa do modo de produção e de consumo que o meio ambiente se encontra tão destruído. Reverter isso significa tirar o poder econômico de banqueiros, empreiteiras, mineradoras, latifundiários, montadoras de automóveis. E isso é nada mais, nada menos, que a esquerda. Das mais revolucionárias. E não dá pra ser revolucionário ficando em cima do muro. Eu acreditaria na Marina se ela desse nome aos bois e dissesse – aliás, dizer não, porque isso é muito fácil. Se ela mostrasse que está disposta a contrariar interesses de gente muito poderosa. Não é o que ela vem fazendo.

Só que eu também não vou cair na sanha governista de tentar barrar a candidatura da Marina Silva a todo custo. Porque, sinceramente, ela não é uma ameaça maior às minhas lutas do que Dilma Rousseff*. Tampouco é uma ameaça menor. É muito semelhante, embora seja hábil em disfarçar isso. Na verdade, eu quero muito que ela concorra às eleições e dê um baita sacode no PT. Porque eu acho que eles precisam disso. Precisam sentir que cuspir na cara de sua base tem um preço nas urnas, que é, afinal, o único objetivo que lhes interessa. Quero mesmo ver a Dilma Rousseff e sua equipe de governo rebolando para reconquistar a base dos eleitores petistas. Não que eu tenha esperança de vê-la governando para essa base, Dilma jamais vai fará isso. A esta altura, eu só espero que ela pare de pisotear nos direitos que conquistamos com tanta luta. Que ela não contribua com o retrocesso.

Daí fica a pergunta: se Marina não é boa e Dilma também não, o que é possível fazer? Em quem votar? A minha candidata é a Luciana Genro, do PSOL. Mas acho que minha defesa de voto merece outro post só pra isso.

(A fonte da citação da revista do gabinete da Marina Silva é este link: a rede de Marina Silva)

*Perceberam que me recusei a mencionar possíveis candidatos tucanos? É que essa desgraça jamais foi realmente uma opção pra mim, portanto me reservo o direito de ignorá-los quando falo de minhas visões políticas.

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