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manifesto pelo fim do ódio a nossos corpos

agosto 7, 2014

Eu vou ser bem sincera: não gosto muito desse termo “gordofobia”. No entanto, acho importante que a gente tenha uma forma de identificar esse ódio por gente gorda. Na minha opinião, quem mais costuma sofrer por conta da aparência são as mulheres, então eu chamo é de misoginia mesmo (e tem um livraço da Naomi Wolf, clássico, sobre isso). Claro que homens gordos costumam sofrer também, mas, como eu disse, quem mais costuma sofrer cobranças quanto à própria aparência de forma geral são as mulheres. Por isso que, nesse texto, vou me referir mais a elas.

Daí que caiu um chorume absurdo na minha mão exatamente sobre o assunto e que deu um sentido completamente novo pra mim ao termo gordofobia. Ou eu que não tinha pensado por esse viés antes, mas enfim. É um texto que, do começo ao fim, fala do pavor da autora de ficar gorda. Pode ser um tanto exagerado só pra se tornar um texto mais interessante (dica: não é. É só doentio mesmo).

o horror, o horror

o horror, o horror

A moça fala de como tem ojeriza a ver uma gorda fazendo exercício. Não sei muito bem daonde saiu essa neura de que as pessoas precisam ser bonitas se exercitando. E, gente, nada contra, mas quem se importa? Se você faz atividade física pensando se está feia quando corre, nada, dança, transpira e sua respiração acelera, você simplesmente não se diverte. Não aproveita cada milímetro do seu corpo se movendo, se fortalecendo, alongando.

realmente, é impossível se divertir com qualquer coisa quando você se odeia tanto

realmente, é impossível se divertir com qualquer coisa quando você se odeia tanto

Não sei vocês, mas eu acho o máximo como meu corpo consegue se adaptar e fazer direitinho o que eu preciso que ele faça. E, não, eu não fico bonita no processo. Mas, olha, eu me divirto pra cacete. Não é o que importa? Pra mim, é o máximo como a cada dia eu consigo correr um pouco mais, aumentar o peso dos aparelhos, faço flexões e abdominais com um pouco mais de facilidade. Lembro direitinho que, quando comecei as aulas de muay thai, não conseguia fazer nenhuma flexão e um ano depois, faço várias séries (também acho incrível a criatividade das pessoas na hora de inventar flexões: já fiz uns dez tipos diferentes). 

Pra mim, essa é uma neura semelhante a ficar bonita fazendo sexo. Sim, isso existe. E se você se preocupa justamente com isso, é sinal de que alguma coisa tá muito errada.

Enfim, voltando ao esporte, esse senso de inadequação é um dos principais motivos pelos quais mulheres gordas deixam de fazer atividade física. Quem já foi adolescente gorda em uma aula de educação física sabe como é.

Algo bastante desagradável e opressor é que existe essa obrigação de pessoas gordas fazerem exercício apenas para emagrecer. Porque todo gordo tem que passar a vida SE REDIMINDO desse pecado e ai dele se fizer alguma coisa que gosta, mas não necessariamente leva à perda de peso.

tchau gordinha pena

prq alguém se obriga a fazer algo que odeia? pra não ter o destino terrível de ficar gorda, claro

É claro que podem existir recomendações médicas para uma pessoa perder peso, da mesma forma que uma pessoa gorda pode ser absolutamente saudável – peso corporal não é, nem nunca foi, um bom indicador de saúde. Mas, como eu falei ali em cima, fazer exercícios pode trazer um prazer absurdo para uma pessoa, basta ela achar algo que lhe dê prazer. E é muito difícil curtir o que você faz quando você presta atenção na sua aparência (estou feia? descabelada? minha bunda tá esquisita nessa roupa?), nas calorias gastas, nos centímetros de barriga e braços e pernas que vão embora ou que chegam, enfim, quando você presta atenção em tudo menos na atividade que você está fazendo. É impossível ter prazer com esportes quando existem essas cobranças absurdas nas nossas cabeças.

Minha recomendação pra quem é gordo, quer fazer atividade física, mas não se sente com coragem pra começar, ou muito desestimulado porque pensa nessa galera que vai te olhar na rua e, apesar de não te conhecer, vai sentir PENA de você por ser gordo e fazer exercícios: meus amores, vocês não estão nesse mundo pra agradar ninguém além de vocês mesmos. Parece auto-ajuda barata, mas (por experiência própria) pouca coisa é tão libertadora quanto perceber que essa cobrança para que sejamos agradáveis, principalmente no que diz respeito à estética, é só mais uma forma de controlar nossos corpos. E, portanto, somos capazes de destruir essa ideia. Vai ter gente que vai te achar horrível, vai ter gente que vai ter achar linda – e nenhuma dessas pessoas tem absolutamente porra nenhuma a ver com a sua vida. Confiem em mim quando digo que o prazer que nosso corpo nos traz é maior do que essa gente escrota. 

Nem sempre é fácil botar isso em prática, eu reconheço, mas a gente precisa fazer um esforço diário. Não é fácil destruir o ódio que uma sociedade inteira nos ensinou a ter.

Aí entro no segundo ponto complexo desse texto chorumento. Nas palavras de Naomi Wolf:

“(…) existe uma subvida secreta que envenena nossa liberdade: imersa em conceitos de beleza, ela é um escuro filão de ódio a nós mesmas, obsessões com o físico, pânico de envelhecer e pavor de perder o controle (…) a ideologia da beleza é a última das antigas ideologias femininas que ainda tem o poder de controlar aquelas mulheres que a segunda onda do feminismo teria tornado relativamente incontroláveis”

Por isso eu falei que a gordofobia tem muito mais a ver com misoginia do que a gente costuma admitir. E isso tá muito presente nesse texto chorumento. A autora tem um verdadeiro pânico de engordar porque isso vai torná-la uma pessoa imprestável, infeliz, que precisa se esconder patologicamente. É um tal de usar roupas que disfarçam os braços, a barriga, as coxas, isso e aquilo… E ninguém nunca me respondeu adequadamente porque uma pessoa gorda precisa esconder seu corpo para ser agradável. Esse trecho é um bom exemplo de muita coisa errada:

braços

 Como eu disse, ninguém tem a OBRIGAÇÃO de agradar outra pessoa. Se alguém não gosta da aparência do seu braço, a única resposta razoável que se pode dar é ¯\_(ツ)_/¯ ou um murro na cara do/da infeliz (e, ó, meus brações são um bocado fortes). Mas vejam a quantidade de infelicidade que existe nesse texto. “Quem sou eu para não gostar de cara de regata?”, descontando a baita futilidade, nada mais é do que “quem sou eu, gorda, para rejeitar alguém?”. Porque existe essa idéia de que gorda não pode ter auto-estima e deve se contentar com qualquer um que fizer o favor de se interessar por ela. E, infelizmente, é fácil para uma pessoa que se odeia aceitar engolir um monte de desaforo porque acha que não consegue algo melhor.

continuo me escondendo

 É um texto impregnado de ódio e uma compaixão muito torpe. Olha, quem é gorda sabe a chateação que é pra arranjar roupa, a patrulha constante de amigos e família, as intermináveis discussões sobre dietas, perda de peso, você vai comer MAIS UM pedaço de bolo?, enfim. O que não faltam são notícias de como o bullying motivou alguma mulher a perder dezenas de quilos em alguns meses. E eu não sou o tipo de pessoa que sai enfiando o dedo na cara da galera que faz dieta e exercícios buscando emagrecer porque ela tá traindo o movimento adiposo. Mas é perfeitamente possível perder peso sem se odiar. Esse que é o grande problema. Existe muita gente lucrando com o ódio que sentimos de nós mesmas – daí a compaixão que essa autora sente das mulheres gordas que fazem exercício, porque enfiam nas nossas cabeças que não existe gordo feliz, saudável, que sente prazer em fazer esportes e que não está absolutamente obcecado em diminuir algumas medidas.

Sinceramente? Não tenham pena de mim, com meus 80 e tantos quilos (e 1,65m de altura). Eu é que tenho pena de vocês, mesmo sem saber quanto vocês pesam, porque vocês se odeiam tanto. Todo dia, eu busco me manter saudável. E é por isso que sou perfeitamente capaz de ir pra academia, almoçar salada, beber cerveja e comer pizza com os amigos no mesmo dia. Porque tudo isso me faz feliz. Mesmo que o mundo acredite que nós, gordas, sejamos incapazes disso.

Somos capazes de muito, muito mais do que nos dizem.

(e podem ir pra casa do caralho você e essa piedade ridícula)

Íntegra do texto no encurtador de chorume

Aqui um texto legal sobre esse tipo de gente escrota, os babacas fitness

Esse corpo te pertence, sim. Cuide bem dele!

E um site bacana que incentiva mulheres a não se odiarem (em inglês)

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One Comment
  1. Karla, adorei seu texto – e o livro da Naomi é sempre recomendadíssimo mesmo…

    deixo link do último texto que escrevi mais ou menos sobre esse assunto, após ver uma reportagem na qual as pessoas estavam sendo reprovadas em perícia de concurso público única e exclusivamente por sobrepeso: http://reayla.blogspot.com.br/2014/07/sobre-peso.html

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