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A criminalização é uma questão de tempo

outubro 2, 2013

Junho acabou, mas continua reverberando no Rio de Janeiro. Tanto nos atos, manifestações, passeatas e quebra-quebras, quanto na truculência que sofremos. Chegamos a outubro de 2013 e ainda sentimos toda a força do aparato repressivo do Estado.

Os principais protagonistas deste momento são os profissionais da educação do estado e do município. Depois de encerrar uma greve que teve início em agosto, os profissionais tomaram uma rasteira do prefeito (que enviou para a câmara um plano de cargos, carreira e remuneração que não contemplava as demandas da categoria) e a base retomou a greve. Após ocuparem o prédio da prefeitura por algumas horas, a categoria ocupou a câmara de vereadores para impedir que o tal plano fosse votado. Foram expulsos debaixo de porrada pela PM, que sequer tinha uma ordem de reintegração (desnecessário dizer que, mesmo se existisse tal ordem, a truculência é inaceitável). Era a madrugada de um sábado e o próprio comandante da PM disse que seguia ordens de um parlamentar para esvaziar a câmara e possibilitar a retomada dos trabalhos. Dois dias depois, a PM novamente expulsou com truculência uma manifestação em apoio aos grevistas que ocorria na cinelândia. E na terça, dia 1º de outubro, um verdadeiro aparato de guerra garantiu que o projeto do prefeito seria aprovado: as ruas do entorno da câmara foram interditadas pela PM, as galerias da câmara estavam vazias; lá fora, a polícia militar deu seu costumeiro espetáculo de violência por mais de 10 horas contra os manifestantes.

Jato de spray de pimenta nos manifestantes. Rio de Janeiro, 30 de setembro de 2013.

Eu estive na cinelândia na segunda-feira, mas dei a sorte de sair antes que a polícia caísse de porrada em cima dos manifestantes. Ouvi uma manifestante no carro de som repudiar as revistas arbitrárias da PM: “não precisa revistar ninguém! Nós não somos vândalos, não somos bandidos! Não precisa nos revistar!”

Isso me lembrou outro momento crítico da repressão em nosso Estado: a prisão dos administradores da página black bloc RJ. Ela ocorreu pouco antes do sete de setembro, cumprindo ordens da Comissão Especial de Investigação de Vandalismo (CEIV, criada pelo Cabral depois do quebra-quebra no Leblon e que foi revogada no final de setembro). Desde a criação da comissão até a prisão dessas pessoas, todo o processo foi bizarramente ilegal. Todos eles foram presos sem mandado, após prestarem depoimentos sobre a operação de busca e apreensão ocorrida no meio da madrugada. A polícia só tinha mandado de apreensão de equipamentos eletrônicos, mas apreendeu artefatos perigosos como máscaras, livros anarquistas e comunistas, canivetes e facas. Tudo devidamente registrado pela mídia, que é pra dar o exemplo.

A operação foi tão ridiculamente ilegal e infundada que todos eles foram soltos em menos de um mês. Assim que saíram, os rapazes e suas famílias foram convidados a falar sobre sua experiência. A mãe de um deles, muito emocionada, falava o tempo todo que a polícia não podia ter agido daquela forma, pois seu filho “não era um bandido”.

E eis o problema. Ao contrário do que gostaríamos de acreditar, esses rapazes tiveram o tratamento usualmente dispensado aos bandidos porque eram bandidos. Porque é isso que a repressão faz: transforma aqueles que ousam levantar a voz e lutar em bandidos.

Em geral, a maneira desumana como o Estado lida com seus bandidos não incomoda boa parte da população porque esta sabe que não é alvo. De que me interessa se a polícia entra sem mandado na casa de favelado, no meio da noite? Alguma essa pessoa aprontou, senão a polícia não estaria lá. E, se a pessoa é inocente, fazer o quê? É o preço que se paga para manter a ordem.

É por isso que a forte repressão saltou aos olhos nos protestos de junho, porque ela desceu o morro e foi pra avenida. Quem faz ativismo sabe que a PM nunca tratou manifestante com civilidade, mas tudo mudou quando outras pessoas, até então desacostumadas com essa conduta, se tornaram o alvo.

O Estado, atendendo a interesses particulares, elege seus alvos e transforma todos em bandidos, vândalos, conforme o momento político pede. É comum voltar a atenção para a polícia militar, afinal ela é o braço armado disso tudo. Mas todos os poderes servem para isso. Servem para esmagar quem está no caminho, quem é o incômodo da vez. E isso só é possível porque naturalizamos isso. Reproduzimos e damos aval aos discursos repressivos quando se trata de criminosos (de fato ou, mais perigoso ainda, em potencial). Então, se a PM esculacha o morador de favela, isso não é problema nosso. Se o Estado trata a população carcerária da forma mais desumana possível, isso não é problema nosso.

Só existe uma certeza nisso: quando esse discurso é reproduzido e quando essas práticas ganham aval da população, tornando-se a norma da sociedade, é só questão de tempo para que todo mundo vire bandido.

democracia capitalista

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From → política

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