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De pé, ó vítimas da ordem

setembro 23, 2013

Na semana passada, a ALERJ aprovou e o governador Sérgio Cabral sancionou a absurda lei que proíbe o uso de máscaras em manifestações políticas. Como no Rio tudo (começa e) acaba em Carnaval, foi marcado um baile de máscaras como protesto contra isso. O baile contou com a presença do ótimo Bloco do Nada Deve Parecer Natural. Marcado para acabar às 22h, os presentes no baile conseguiram convencer a guarda municipal a prolongar a festa. Animadas, algumas pessoas seguiram para o Palácio Guanabara e ocuparam as escadarias do lugar, que contava com 4 oficiais da PM para fazer a segurança.

Eu fiquei no bloco até as 22h. Cheguei em casa pouco antes de meia-noite e só aí fiquei sabendo disso tudo. Morri de inveja de quem ainda estava lá. Mas fiquei muito feliz pelo sucesso que a festa em praça pública teve.

Aí eu acordo e descubro que não apenas foram reclamar do barulho até mais tarde  no evento do baile no facebook, como as pessoas que foram até o palácio Guanabara vão responder criminalmente por isso.

A notícia chega a ser engraçada, embora de um jeito trágico. Cidadãos responderão criminalmente por invadir um prédio que é público. Tudo que fizeram foi ultrapassar uma fita amarela que fica na entrada e subir as escadas. Alguns abriram as portas do prédio e entraram no salão. Não causaram um dano sequer ao patrimônio público, mas serão criminalizados da mesma forma.

Obviamente a tal preocupação com o patrimônio é apenas uma desculpa para assustar qualquer um que pretenda se levantar contra a ordem. Pra que nenhum engraçadinho tente dar abraço coletivo na PM e desmoralizar esta valorosa corporação de novo.

Mas o que me incomodou mesmo foram as pessoas reclamando do barulho. Entendo que isso pode não ser agradável. Mas, gente, vocês perceberam que o objetivo dessa festa era transgredir? Quebrar a ordem? Quem reclamou disso me deu a impressão de não entender muito bem o contexto do Rio de Janeiro – não só no que se refere às máscaras nos protestos e à criminalização dos movimentos sociais.

Já falei de como uma criança em um velocípede escancarou um discurso perverso que vem tomando conta da cidade. Esse incidente com o baile de máscaras fez a mesma coisa. Escancarou um discurso de amor e apego à ordem que só serve para tirar as pessoas das ruas. Uma cidade só fica em silêncio quando as pessoas não ocupam os espaços públicos. Uma cidade só fica em silêncio com seus habitantes dentro de casa, inofensivos à ordem.

E o Rio de Janeiro não é assim, porque a cidade é viva. É barulhenta, desordenada, porque é uma cidade que pulsa, é uma cidade vibrante. É uma cidade que pertence às pessoas – e é só por isso que no Rio colocam um bloco de carnaval na rua em pleno mês de setembro.

Tentar impor a ordem e deixar o Rio em silêncio é matar a cidade.

Por isso, é sempre bom lembrar que o Rio não pertence à guarda municipal, à PM, a quem ocupa os cargos do governo. As ruas do Rio pertencem às pessoas e nós vamos ocupá-las. Querendo os amantes da ordem e do silêncio ou não.

A ordem, quando existe para reprimir e excluir, deve ser desafiada e destruída. Mesmo que seja com música, afinal, esta é mesmo a cara do Rio de Janeiro.

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