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A rebeldia de velocípede

setembro 21, 2013

Era apenas mais um dia normal no Rio de Janeiro quando o principal jornal local levou ao ar imagens de um menino descendo de velocípede o elevado Paulo de Frontin, uma via movimentada do Centro. A apresentadora chama atenção para o perigo que a criança correu ao brincar no meio dos carros, reclama de possível negligência dos pais e do poder público (nenhuma palavra sobre o cinegrafista que fez estas imagens e não pareceu muito interessado em ajudar uma criança que parecia correr tanto perigo). E o comentarista ao lado dela comete o ato falho do ano.

“A prefeitura já fez remoções, fez 2.000 acolhimentos de pessoas nesta área, mas elas sempre voltam porque não são obrigadas a ficar”.

Então temos que uma criança pobre brincando na rua é um problema social e a solução é remover as famílias mais pobres do Centro.

Acho meio indiscutível que aquela criança realmente estava correndo perigo naquela situação. Mas não é curioso como a gente naturaliza que as ruas (e, portanto, a cidade) pertencem aos carros? Que uma criança brincando em uma rua, por mais movimentada que seja, é um problema social?

Isso nos leva de volta ao começo de junho, quando as manifestações tinham o claro objetivo de reduzir as tarifas de ônibus. Com a expansão delas, a mídia foi esperta e preferiu ignorar esta pauta, que se tratava do direito à cidade. Éramos contra o aumento das tarifas porque cobrar caro (ou, na minha opinião, cobrar qualquer coisa) pelo transporte público é impedir que uma parcela significativa da sociedade tenha direito à cidade. A luta pela tarifa zero, por transporte 24h, dentre outras reivindicações, é isso. É lutar para que as pessoas mais pobres também tenham seu direito de ocupar os espaços públicos.

E esse menino sem querer escancarou a lógica que combatemos. Das pessoas que são um problema, algo a ser removido, escondido nas periferias. Da cidade que não é de seus habitantes, mas dos carros, dos investimentos, do lucro. Isso é especialmente importante para entender o contexto das revoltas no Rio. Há alguns anos, o Rio vem se tornando modelo de um balcão de negócios. Pobres em áreas de luxo? Remove. Tem favela no meio do caminho? Coloca a PM e diz que é pacificação. Tem espaço público dando bobeira? Privatiza, constrói estacionamento, constrói arranha-céu. Vende tudo para meia dúzia de empreiteiras organizadas em consórcios.

Éramos um modelo de cidade-negócio que se tornou um modelo de cidade rebelde. E estamos brigando para reconquistar o que é nosso.

 

 

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From → política

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