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Vocês não estão entendendo nada

setembro 1, 2013

Acho que não preciso apresentar o contexto dos Black blocs cariocas, que ficaram especialmente notórios após destruírem uma loja do Leblon (o horror! O horror!). Como o Rio de Janeiro continua indo às ruas exigindo uma CPI dos Ônibus séria, exigindo a renúncia do governador Sérgio Cabral, exigindo saber o que aconteceu com o Amarildo, dentre outras demandas, a repressão continua forte por aqui. É aquilo, quando você acha que a polícia se superou na truculência, ela te surpreende.

Os Black Blocs começaram a ser alvo de pesadas críticas. Começou com o PSTU, pelo menos um setor do PSOL fez coro. Tivemos a Veja, sempre ela, dedicando uma capa ao “bando dos caras-tapadas”. Sempre podemos contar com a desonestidade e falta de sutileza dessa revista, é claro. Mas aí tivemos a Marilena Chauí fazendo seu papel de revista Veja da esquerda e chamando os Black Blocs de fascistas em uma palestra para a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Não tem como dar errado, Marilena, parabéns.

Repressão no Rio de Janeiro, 27 de agosto de 2013

E eu me sinto particularmente incomodada de ver os Black blocs sendo criticados por todo mundo. Porque é muito fácil criticá-los. É um grupo horizontal, heterogêneo, que nem adota uma postura política única. Resumindo, é um grupo que não tem como se defender. Ou alguém imagina que a PM vá abrir as portas para os Black blocs darem palestra por lá?

Uma das críticas feitas aos BBs é que esta tática não é eficiente, pois não contribui para organizar os trabalhadores. E isto é verdade. Talvez a perspectiva do enfrentamento com a polícia e do quebra-quebra não agrade à maioria dos trabalhadores que gostaria de participar dos protestos e até concorda com as pautas das manifestações. No entanto, este não é o papel dos Black blocs. E, de qualquer forma, eu não vejo a esquerda tentando organizar estes trabalhadores. No geral, os partidos e organizações de esquerda preferem se fechar em seus grupos e se limitar a conversar com quem já concorda com suas ideias. Há pouco diálogo entre os setores da esquerda, em sua maioria muito sectários, que dirá com trabalhadores que não estão organizados. É preciso fazer um trabalho de base que é cansativo, desgastante, que pode não render os frutos esperados. Mas se a esquerda não fizer isso, quem fará? É injusto exigir isso dos Black Blocs, pois esta responsabilidade não é deles.

Nas palavras de Leon Trotsky:

“Os reformistas incutem sistematicamente nos operários a idéia de que a sacrossanta democracia está assegurada da melhor maneira quando a buirguesia está armada até os dentes e os operários, desarmados. (…) Aos bandos do fascismo somente podem opor-se com sucesso destacamentos de operários armados que sintam atrás de si o apoio de dezenas de milhões de trabalhadores.”

(Trecho do livro O Programa de Transição)

Persiste a ideia de que a ação dos Black blocs é usada para justificar a violência contra os manifestantes. É inadmissível falarem isso depois de junho. Já esqueceram das fotos de manifestantes apanhando de joelhos, com flores na mão? Esqueceram da PM partindo pra cima de um milhão de pessoas na Avenida Presidente Vargas? Não caiam nesse papo.

Junho, em São Paulo

Junho, em São Paulo

Os setores conservadores da sociedade (inclusive a mídia e os próprios representantes eleitos) vão desqualificar as manifestações de qualquer jeito, como sempre fizeram. É esse o papel deles. Por que deveríamos nos pautar por eles? Se o trabalho de base fosse feito, não seria necessária tamanha preocupação com a repercussão que vem da mídia e dos gabinetes. Voltaremos aos desfiles ufanistas dos caras-pintadas cantando o hino nacional e exigindo a expulsão dos partidos?

sempre ela

sempre ela

A auto-crítica feita pelos Black blocs em si é muito positiva, principalmente considerando o quanto isso é raro na esquerda. Não gosto é do cenário em que ela se deu, com esses manifestantes sendo duramente criticados tanto pela direita (o que é esperado), quanto pela esquerda (destaque especial pra Marilena Chauí chauízando). Sinto um grande incômodo que isso tenha acontecido quando tramita na ALERJ um projeto de lei proibindo o uso de máscaras e qualquer coisa que sirva para cobrir o rosto nas manifestações. É inadmissível ter que lutar pra não perder um direito constitucional por conta de uma desculpa esfarrapada como essas. O nome disso é repressão. No momento em que se discute a desmilitarização da polícia, é necessário lembrar que a repressão vem por outros meios, por todos os lados, de formas mais sutis que uma cambada de fardados com (ah, a ironia) rostos cobertos e sem nome na farda que dispara contra a população desarmada.

jogo: ache o oficial do choque com o rosto descoberto

Se você ainda acha que a destruição de vidraças de bancos e vitrines de loja é usada como justificativa pra repressão. Se você acha que só vai com o rosto coberto pra manifestação quem já está mal-intencionado. Desculpa dizer, mas você não entendeu nada. Não entendeu o que significou junho, não entendeu nada sobre a repressão que enfrentamos nessa tal democracia, não entendeu o que significou a prisão de vários manifestantes no complexo penitenciário de Bangu. Não entendeu o caso Amarildo. Não entendeu as mortes na Maré.

Depois não vá reclamar que está sendo expulso das manifestações. Não vá reclamar que a esquerda foi pega de surpresa nas mobilizações futuras.

* * *

UPDATE: o Estado mostra as suas garras e lembra que é ineficaz concentrar esforços apenas pela desmilitarização da Polícia.

O tal projeto que torna crime cobrir o rosto em manifestações foi pro plenário na terça, dia 03/09, mas não foi votado. Porém, está previsto que seja votado novamente na terça que vem, dia 10/09.

No entanto, uma decisão judicial absurda teve o mesmo efeito. A partir de ontem, 03/09, a polícia militar pode conduzir para a delegacia qualquer pessoa que esteja cobrindo o rosto, para CADASTRAREM seus dados pessoais como nome completo, foto do rosto e impressões digitais.

Além disso, há notícia de que os administradores da página Black Bloc RJ no facebook receberam prisão preventiva, ou seja, vão aguardar o julgamento na cadeia. Detalhe: eles foram presos sem mandado para tal porque encontraram em suas casas… Facas.

É a criminalização escancarada dos movimentos sociais.

Embora as ofensivas tenham vindo do Legislativo e do Judiciário, é importante lembrar que estes dois poderes estão atendendo os desejos do poder Executivo. Foi o Sérgio Cabral, através da tal Comissão de Investigação de atos de Vandalismo, quem solicitou a aprovação da tal medida judicial.

Isso apenas escancara a podridão da democracia burguesa. Só pode ser ingenuidade achar que conseguiremos conquistas reais através dela, agora que ficou explícito como todas as instâncias da democracia servem a interesses particulares.

A OAB-RJ já se posicionou contra esta decisão. Agora é hora de ir à luta.

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4 Comentários
  1. Carol permalink

    Eu me considero de esquerda, mas discuto pouco e, além de você e outros gatos pingados, não tenho muitos amigos esquerdistas. Observo e leio bastante para tentar embasar minimamente minhas opiniões. Fico de olho nas redes sociais e conversas que pego por aí e, pelo que ando olhando de reações aos black blocs, fico impressionada com a galera de esquerda que ainda cai no conto do manifestante-mau-que-quebra tudo-e-estraga-a-manifestação. Não sei se alguém lembra, mas em junho, todo o mundo era vândalo. Estar na rua gritando era ato de vandalismo, ser contra governos que não respeitam a dignidade humana e os princípios éticos, mais vandalismo ainda. Não existe modo certo de manifestar – bem, talvez se for todo o mundo de branco no domingo caminhando em Ipanema sem causar nem cócegas no poder público, esteja ok. Se não mais existirem os black blocs quebrando tudo, logo será criada outra justificativa de repressão.

    Na primeira manifestação, nosso amigo me ensinou algo que guardei pra sempre comigo: o perigo é quando a gente deslegitima nossas causas. Digo mais: é ainda mais perigoso quando a gente deslegitima nossas causas usando as justificativas de quem nos oprime; isso está longe de ser auto-crítica. E, sim, vou repetir isso oitocentas vezes por mês.

    • esse papo de o black bloc servir como justificativa me cansa prq, como eu já falei trocentas vezes, na primeira manifestação em que eu fui não houve um ato de ~vandalismo~ sequer, mas o choque desceu a porrada nas pessoas, como de costume. então, minha gente, esse papo não funciona. pleno setembro de 2013 e eu ainda preciso repetir isso cacete viu

  2. aline permalink

    Uma minoria quer a saida do Cabral, os mesmos q nao botam a cara, mas sao basicamente a oposiçao do Cabral, q nao consegue derrota-lo nas urnas, e fica se utilizando de praticas como essa pra manipular o povo contra o cabral

    • cabral é um merda, não precisa de ninguém manipulando a opinião pública contra ele. basta perguntar aos usuários de serviços como barcas, trens da SuperVia, metrô. pergunta à família do amarildo e de tantos outros mortos e torturados pela polícia militar se eles gostam do governo cabral.

      governista delirante é assim, ignora a realidade só pra defender os aliados. que nojo de vcs

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