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Estado que mata, nunca mais!

julho 4, 2013

O último post deste blog diz respeito a algo que eu chamei de barbárie: a noite de 20/06/2013, quando o aparato do Estado reprimiu com violência os manifestantes que se encontravam na Avenida Presidente Vargas. E, de fato, foi a experiência mais assustadora da minha vida. Eu nunca havia visto a força do Estado voltada contra mim. Eu me senti vulnerável, impotente, humilhada. Mas sentia a segurança de estar abrigada em um prédio da UFRJ. Senti a solidariedade de integrantes da OAB e da ALERJ, que foram nos ajudar. Estava acuada, mas não estava sozinha. Poucos dias depois, na madrugada do dia 24, o Estado nos fez lembrar de que pode ser muito mais cruel e violento que aquilo.

Durante uma manifestação na Avenida Brasil, na altura da favela Nova Holanda, um grupo realizou arrastões no local. A polícia chegou e eles fugiram para a favela. Lá, um oficial do BOPE foi morto a tiros. A partir daí, seguiu-se uma chacina para vingar a morte do oficial.

Eu não vou mentir: sou uma pessoa de classe média e sempre fiquei muito distante das favelas, apesar de elas serem parte indissociável do Rio de Janeiro. Não é que eu feche os olhos para esta parte da cidade, mas falar das tragédias que ocorrem por lá é como falar de algo triste, tocante, mas distante de minha vida. Porém, quando as notícias foram chegando e o número de mortos só aumentava, a favela passou também a ser parte de mim. Eu jamais poderia ignorar o medo, o desespero, a angústia daquelas pessoas depois de ter passado por um terror muito parecido (guardadas as devidas proporções, é claro) perpetrado pelo mesmo aparato repressor do Estado. Jamais conheci nenhuma das vítimas, mas a morte delas me fazia pensar que algo dentro de nós morreu junto.

Nós morremos aos poucos a cada vítima da brutalidade nas favelas. Morremos como sociedade. Uma parte de nossa humanidade se vai junto com estes mortos, que se tornam apenas números numa estatística cruel. Parte da nossa juventude é exterminada todos os dias, não apenas pelas balas de fuzil, mas pelo abandono, pela exclusão. E isso virou parte do cotidiano. As vítimas se tornam mero efeito colateral de uma guerra contra o tráfico, de uma pacificação promovida pelos caveirões. Estes blindados que tanto me escandalizaram na noite do dia 20, quando desfilaram pela cidade atrás de manifestantes, são o cotidiano destas comunidades.

Talvez esta chacina tivesse passado em branco antes das grandes manifestações no Brasil. Afinal, como eu disse, favelado quando morre só vira estatística. Não foi o que aconteceu. No dia 2/07, cerca de 5 mil pessoas compareceram ao ato ecumênico marcado no complexo da Maré em homenagem aos seus mortos.

Eu cheguei bastante atrasada, pois estava chovendo muito e o trânsito ficou complicado. O ato estava marcado na altura da passarela 9 da Avenida Brasil, em frente à ONG Observatório de Favelas. Desci perto da passarela 6 e fui andando pelo resto do caminho, que se encontrava apinhado de policiais que se encontravam armados até com fuzil. Eu não consigo achar isso normal. Quando foi que um oficial carregando uma arma de guerra virou cotidiano? No caminho, foram estendidas faixas com os nomes de algumas das vítimas e palavras de ordem. Já senti um nó na garganta ali mesmo, antes de chegar ao ato.

maré resiste

Devido ao meu atraso, perdi o que deve ter sido a parte mais emocionante, quando líderes religiosos e familiares das vítimas subiram no carro de som e falaram para a multidão lá embaixo.

No ato, muitos estavam de preto e traziam um adesivo com o que virou o lema da resistência da Maré: Estado que mata, nunca mais! Pelo caminho, manifestantes carregavam cartazes com o nome e a idade de cada uma das vítimas. Senti outro nó na garganta ao constatar que a maioria, assim como eu, não tinha mais de 23 anos.

No carro de som, começaram a cantar alguns funks com letras que traduziam o sentimento de todos lá, independente do lugar de onde vieram, da história de vida até aquele momento. Tudo isso se tornou irrelevante quando cantamos “eu só quero é ser feliz/andar tranquilamente na favela onde eu nasci/e poder me orgulhar/e ter a consciência que o pobre tem seu lugar” e “eu sou favela/sempre fui e sempre serei favela”. Nenhuma frase poderia ter sido mais verdadeira naquele momento. Éramos favela. Não faltaram também palavras de ordem contra o governador, a polícia e até o onipresente Eike Batista.

Este emocionante ato me deixou com vários nós na garganta, mas também com um inédito sentimento de conforto. Aquelas mortes não viraram estatística. Viraram uma indignação que ecoou nas ruas da Maré e chegou à Avenida. Virou uma indignação que levou gente até então distante a prestar solidariedade e unir forças. Tenho a esperança de que não há momento mais propício para discutir o fim da polícia militar e repensar a lógica que empurra tanta gente pra miséria, que torna tantas vidas descartáveis. Só nos resta saber aproveitar isso, para que tanto sangue derramado não seja em vão.

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From → política

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