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Só restaram as dúvidas

junho 22, 2013

“O trajeto combinado vai da Candelária até a Prefeitura. Passando da Central do Brasil, existem poucas ruas e poucas rotas de fuga. É óbvio que o Choque estará lá, mas eles não vão barbarizar pra cima de uma multidão”

Este era o diálogo que tive com meus amigos antes de irmos à manifestação do dia 20/06 no Rio de Janeiro. A coisa já começa surreal por aí: precisar definir rotas de fuga caso a polícia queira te impedir de exercer seu direito democrático na marra. Mas, bem ou mal, já estávamos acostumados a isso. Sabíamos que a repressão viria. Mas, neste dia, percebemos que não há limite algum para a truculência do Estado.

O que vou escrever agora pode ficar confuso, pois é uma tentativa desesperada de dar sentido, qualquer um, a algo que ainda está muito embaralhado na minha cabeça.

Desde segunda-feira, quando a Rio Branco e a Cinelândia foram completamente tomadas por manifestantes, senti um estranhamento muito grande. Durante todo aquele interminável caminho, só o que eu pensava era: “o que está acontecendo aqui?”. Uma pergunta estúpida, já que, para mim, a idéia era muito clara: lutar pela revogação do aumento das passagens de ônibus. Havia a idéia maior por trás disso, de lutar pelo direito de ir e vir pela cidade (que fica prejudicado, especialmente para as pessoas de baixa renda, pelo alto preço das tarifas) e pelo próprio direito às manifestações, que vinha sendo sistematicamente tirado de nós pela polícia. Naquela quinta-feira, estávamos nas ruas porque a revogação do aumento das tarifas foi só para inglês ver, já que a medida nem arranhou os lucros da Fetranspor. Mas tudo isso também me parecia claro. Porém, quando me vi cercada daquela massa amorfa, de branco, que entoava cantos ufanistas de torcida de vôlei, percebi que clareza era a única coisa que não existia ali.

Na internet e nas ruas, havia uma forte repulsa aos partidos de esquerda que sempre estiveram presentes nestes movimentos. Aí fiquei com raiva. Sou contra levar bandeira de partido pra esses atos, mas quem quer levar, fique à vontade, afinal, é um direito. Sempre foi assim. Havia nisso quase uma ofensa pessoal pra mim: eu sou filiada ao PSOL, estou nesse movimento desde o início, quando tomávamos porrada do Choque e ninguém ficava sabendo. E agora essa galera, que até ontem chamava movimento social de vagabundo e baderneiro, quer me expulsar de lá? Quando vi a hostilidade aos partidos, chegando até a agressões físicas, percebi que a coisa era bem mais grave.

A sensação de “mas que porra está acontecendo aqui?” me acompanhou desde a segunda-feira e ficou maior ainda nesta quinta-feira. Novamente, estava do lado de milhares de pessoas que não pareciam ter idéia do que estava acontecendo. Parecia um péssimo bloco de carnaval, porque nem música estava rolando. No máximo, um “eu sou brasileeeeeiro/com muito orgulhooo/com muito amoooooor”. Prontamente, meu grupo dava a seguinte resposta: “alô, reaça, eu não vou falar de novo: não é pela pátria, é pelo povo”. Assim foi da Candelária até um pouco depois da Central do Brasil, perto da prefeitura.

Como eu disse, era óbvio que a polícia não nos deixaria chegar à prefeitura. Eles já estavam lá, nos aguardando, e começaram a fazer o que sabem para nos dispersar. Quando cheguei à Cidade Nova, muita gente já estava voltando. Ouvíamos barulhos de bombas. Tentando conter o desespero para não causar uma desgraça maior, meu grupo se sentou no chão e tentou convencer os outros a fazer o mesmo. A idéia era prosseguir até a prefeitura. Desistimos quando recebemos orientação de um carro de som para recuar.

Uma das rotas de fuga seria o prédio da faculdade nacional de direito (FND) da UFRJ, ali perto. Sabíamos que era arriscado, pois ela fica quase do lado da sede do Batalhão de Choque. Havia muito barulho de bomba vindo daquela direção, ao mesmo tempo em que alguns manifestantes seguiam para o prédio da UFRJ. Paramos na esquina entre a Presidente Vargas e a rua da FND para decidir o que faríamos. Grande erro. Uma nuvem de gás lacrimogêneo nos alcançou. Uma multidão passou correndo e meu grupo acabou se dispersando.

Nunca senti o gás lacrimogêneo tão perto de mim antes da quarta-feira, na passeata em Niterói, quando eu estava sem máscara, sem lenço pra cobrir o rosto, sem vinagre. Foi horrível sentir os olhos lacrimejando tanto que mal podia abri-los, aquele gás queimando todas as minhas vias aéreas, o medo de que aquela merda levasse a uma crise de asma. Mesmo assim, sobrevivi e aprendi que os efeitos são passageiros. Pude manter a calma e guiar minha amiga, que também estava desprotegida e não parecia enxergar muito bem no meio do gás, para longe daquilo. Orientei para que ela pegasse o vinagre dentro da bolsa. Andei pelas pistas da Presidente Vargas até encontrar o rapaz que carregava um sinal que servia de ponto de referência para o meu grupo. Conseguimos ficar juntos novamente. Lembro de uma menina em pânico porque precisava pegar seu remédio pra asma e eu ali, ao seu lado, sem poder acalmá-la.

Seguimos em frente. Nas laterais da Presidente Vargas, muitas pessoas destruíam o que viam pela frente. Não posso condená-las. Não sei se eram manifestantes, pessoas infiltradas. Não dá pra ter certeza de nada. Nervosos, tentamos decidir o que fazer. Repassávamos as possíveis rotas de fuga, seguindo a hipótese de que o Choque nunca cerca totalmente um lugar. Mais uma certeza que iria pro ralo depois desta noite. Entramos pela Avenida Passos. Neste momento, a correria era grande e várias motos da PM que estavam paradas na rua avançaram sobre nós. Por causa da correria, meu grupo se dispersou. Uma parte continuou pela Avenida e outra entrou pelas ruas menores até alcançar outro prédio da UFRJ, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Parecia o lugar mais seguro para nos reagrupar e decidir o que fazer. A PM, entretanto, quis que a coisa ficasse diferente.

Os estudantes que entraram no IFCS ficaram sitiados no lugar. Não porque o Choque realmente tivesse cercado o lugar (isso nunca ocorreu), mas porque as notícias que vinham de fora eram apavorantes. O mundo estava desabando. A Lapa estava sendo destruída. Bombas de gás lacrimogêneo foram atiradas dentro de restaurantes e do Circo Voador. A porrada comia na Rio Branco. Pessoas estavam encurraladas na Praça XV. Resumindo: não saímos de lá porque não havia pra onde correr. O Centro, a Glória, o Catete e até Laranjeiras estavam tomados por policiais que brutalizavam quem desse o azar de ficar na frente.

As câmeras da CET-Rio que transmitem imagens dos arredores foram desligadas. Invadiram a FND. Invadiram o Pronto-Atendimento do Hospital Souza Aguiar, jogando bombas de gás lacrimogêneo e distribuindo balas de borracha. Os temidos Caveirões estavam nas ruas. Quem saía da FND era preso e autuado por formação de quadrilha. Consideramos passar a noite no IFCS, pois não parecia ser possível sair daquele inferno ainda naquela noite.

Caveirão, o blindado que o BOPE usa pra subir nas favelas, e manifestantes resistindo à barbárie

Tudo estava tranquilo dentro do IFCS. Só não estava tranquilo dentro de mim. Eu tentei me distrair, consegui me acalmar, mas por dentro permanecia a sensação que aquilo não podia estar acontecendo. Não deveria. Como assim, eu estou presa dentro de um prédio da UFRJ porque a polícia tornou as ruas do Centro muito perigosas? E eu só saí de casa pra protestar contra medidas arbitrárias do governo, um direito previsto na Constituição. Naquele dia, exercer um direito democrático virou crime.

Foram cerca de três horas presa naquele prédio. Lá fora, o mundo desabava e a boataria corria solta. A idéia de passar a noite lá dentro parecia cada vez mais sensata.

Então, alguns representantes da OAB e da comissão de direitos humanos da ALERJ chegaram para nos ajudar. De início, a orientação era pra que passássemos mesmo a noite lá. Depois, os advogados formaram uma escolta para levar os manifestantes até o metrô (que havia sido fechado poucas horas antes).

Advogados escoltando os manifestantes até o metrô da carioca

A idéia era fazer isso com as pessoas que precisavam pegar ônibus, mas não havia garantia alguma de que eles chegariam em segurança até suas casas. Fiquei sabendo que várias pessoas estavam refugiadas nos gabinetes do Chico Alencar e da Janira Rocha. Como consegui abrigo na casa de uma amiga em um lugar próximo e carona com um dos advogados até lá, finalmente saí do IFCS à meia-noite.

Passamos também por alguns lugares do Centro: Lapa e FND. Alguns carros de polícia continuavam nas ruas, mas elas estavam desertas. Nem parecia uma noite de quinta-feira no Rio de Janeiro.

Cheguei na casa desta amiga querida, que me ofereceu abrigo e alguma tranquilidade. Eu permanecia chocada, sem entender direito o que tinha acontecido. Sem entender como foi possível que aquilo acontecesse. Sinceramente, até agora a ficha não caiu direito. Falava com amigas que estavam aos prantos vendo as notícias. Mas eu não consegui chorar. As lágrimas estão até agora entaladas, mas não saem.

Dá vontade de chorar por saber que isso tudo não foi nada perto do que os moradores de favelas passam todos os dias. Dá vontade de chorar por saber que o Estado, aquele que deveria servir ao povo, nos perseguiu como cães raivosos. Dá vontade de chorar ao lembrar do desespero de querer proteger seus amigos, ao mesmo tempo em que você mal consegue se proteger.

E eu, sinceramente, não sei o que fazer. Devemos continuar nas ruas e mostrar que o aparato repressor do Estado não venceu? Devemos enfrentar os fascistas que acordaram? Devemos tentar ser maiores que a massa de manobra ufanista que invadiu as ruas? Não sei se o risco vale a pena: pelo que falaram, foi pura sorte conseguir chegar ao IFCS e ficar segura lá dentro. Eu não quero desistir. Mas, no momento, não sei por que (nem por quem) é esta luta.

Quero citar nominalmente as pessoas e instituições que nos ajudaram: OAB, Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, Marcelo Freixo e Janira Rocha. Enquanto isso, os responsáveis por aquela merda toda (leia-se, os governos municipal, estadual e federal) não davam um pio. Só foram se pronunciar hoje [sexta-feira], em entrevistas coletivas devidamente ensaiadas.

Como finalmente a classe média teve um gostinho do que sofrem os moradores de favela do Rio de Janeiro, espero também que comece a discussão para exigir o fim da PM. O que aconteceu ontem foi a mais clara demonstração de que essa instituição só serve pra proteger patrimônio (aliás, nem isso, já que muita coisa foi quebrada no caminho. A idéia era só cair de porrada em cima de nós). A polícia militar nunca existiu para proteger as pessoas.

Por fim, este é um relato de apenas uma das coisas que aconteceram ontem. É importante correr atrás de relatos das pessoas que estiveram em outros lugares, como Avenida Rio Branco, Praça XV, Lapa, FND, Laranjeiras, para conseguir ter uma idéia mais clara sobre o tamanho da catástrofe que ocorreu ontem.

Neste post, há vários links com vídeos e relatos sobre a barbárie de quinta-feira.

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