Skip to content

Pelo fim do cavalheirismo

maio 28, 2013

Dia desses aí um ~formador de opinião~ deu entrevista para uma jornalista sobre cavalheirismo e aproveitou para escrever um texto defendendo seu direito de ser cavalheiro. Curiosamente, ele ilustrou sua defesa com uma foto do seriado Mad Men, que se passa no início dos anos 60. Uma ótima época para ser mulher, se você gosta da idéia de ser uma cidadã de segunda classe.

É no mínimo ingênuo defender que o tal cavalheirismo seria uma coisa positiva. Afinal, como o autor do texto deixa claro, cavalheirismo é um comportamento que homens devem assumir com mulheres. E ainda acham estranho que feministas sejam contra códigos de conduta que dependem exclusivamente de gênero? Principalmente um código de comportamento que pressupõe a fragilidade da mulher em relação ao homem.

Não é que feministas tenham algo contra gentilezas. Até porque cavalheirismo não é gentileza: é o que chamamos de machismo benevolente. A idéia de que homens precisam ser cavalheiros pressupõe que mulheres são mais frágeis e precisam de proteção. E isso, amigos, essa idéia de que mulheres são naturalmente inferiores aos homens é a definição de machismo.

Essa idéia de fragilidade natural feminina é exatamente o que nos tornou cidadãs de segunda classe por tanto tempo. Devido a nossa fragilidade, havia a idéia de que o papel do homem é cuidar de nós – o que, na prática, nos tornou civilmente incapazes por muito tempo. E, como é dever do homem cuidar de seres mais frágeis, era também esperado que ele educasse as mulheres: era compreensível que um homem castigasse uma mulher fisicamente por algum comportamento inadequado. Resumindo, o cavalheirismo tem origem na mesma idéia que negou vários direitos civis às mulheres e que legitima até hoje comportamentos violentos.

O cavalheirismo é apenas mais um papel de gênero que reforça a idéia de desigualdade, afinal, um homem que se sente no dever de ser cavalheiro não faz isso porque vê as mulheres como iguais. Caberia ao homem, mais forte, se esforçar para compensar nossa fragilidade natural e facilitar nossa vida. Eu defendo o fim do cavalheirismo, já que desejo viver em um mundo mais justo que não trata as mulheres como seres inferiores. Defendo que sejamos mais gentis. Não porque se espera que homens reconheçam sua superioridade natural e tentem compensá-la, mas simplesmente porque somos humanos. Porque é bom viver com pessoas gentis.

Graças ao feminismo, profundas mudanças sociais aconteceram no espaço de poucas décadas. E eu reconheço que é difícil se adaptar a todas elas. Mas não entendo essa necessidade de se apegar a idéias ultrapassadas que não são boas para ninguém. Como já falei muitas vezes, machismo também é prejudicial aos homens por aprisioná-los em papéis de gênero, como a obrigação imbecil de serem provedores, de serem fortes o tempo inteiro. E o feminismo, ao lutar contra o patriarcado, luta também contra isso. A idéia de abrir mão do cavalheirismo só pode ser desconfortável se ela significar abrir mão de se reconhecer como naturalmente superior, mais forte.

Abrir mão de papéis pré-estabelecidos pode ser complicado, mas é também libertador, pois significa que nós seremos responsáveis por definir a maneira como vamos existir e agir no mundo.

Para ilustrar como minha crítica não é à gentileza, mas a uma idéia estúpida de que homens precisam proteger essas mulheres tão débeis, deixo aí um comentário que é quase uma lista de comportamentos cavalheirescos. Não dá pra imaginar que alguém veja uma idéia tão tacanha como positiva. E até agora não entendi porque alguém lutaria pelo direito de ser atropelado por um carro.

Eu sou cavalheiro por vocação (…) Abrir a porta do carro, andar entre a mulher e a rua (caso um carro desgovernado invada a calçada, o macho serve de escudo), ficar atrás da mulher na escada rolante (caso ela se desequilibre, o macho-arrimo está lá, firme), abrir a lata de palmito, trocar lâmpada, ajudar na mudança (se preciso, carregar um sofá 3 lugares sozinho nas costas), dar-lhe o casaco se fizer frio. E por aí vai.

feminismo ideia radical

Outro ótimo texto sobre o assunto: Sobre damas e cavalheiros.

Anúncios
23 Comentários
  1. Juliana permalink

    Bem, eu consigo abrir uma lata de palmito, consigo trocar uma lâmpada (consigo montar um circuito elétrico inteiro da minha própria casa). Consigo também defender meu namorado, colocando-me entre ele e a rua; posso carregar mais que um sofá 3 lugares nas costas…

  2. chegou a me dar um tremorzinho quando vi a foto que o tal formador de opinião usou para ilustrar o texto. será que ele assiste mad men? melhor: será que ele entende mad men?

    respondi a ele: http://mulherdesardas.blogspot.com.br/2013/05/o-mansplaining-deles-de-cada-dia.html

  3. André Caliman permalink

    Achei bonito o texto. Entendi e tudo o mais. Você frisou bem que não é contra a gentileza.
    Acontece que uma mulher de verdade (essa que você quer ser), a mulher bem resolvida moralmente, profissionalmente e sexualmente, vê qualquer ato de cavalheirismo como pura e simples gentileza, nada mais.
    As que não conseguem enxergar simples gentileza em atos ditos de cavalheirismo, é porque são inseguras consigo mesmas e ainda estão competindo por um espaço. Então vêem o homem como um inimigo, e não como alguém diferente dela em muitos sentidos e que pode proporcionar a ela coisas que ela não tem. (óbvio que aqui existe o vice-versa)
    Alguém disse, e esse teu texto prova: Feministas não sabem nada sobre mulher!

    • Claro, quem sabe tudo sobre as mulheres (que são um grupo extremamente homogêneo) não são outras mulheres, são homens.
      Vá pra casa do caralho com esse seu mansplaining arrogante

    • Concordo com vc, André. Sou muher e não acho que atos de cavalheirismo me colocam na posição de sexo frágil. Acho que são gentilezas e disso eu não abro mão.

  4. camila permalink

    “a mulher bem resolvida moralmente, profissionalmente e sexualmente” seria alguém assim como você, André? me explica, eu gostaria de entender o que um homem – sim, completamente diferente de mim – como você, pode contribuir com a mulher que você diz que estou (estamos) querendo ser. me explica, por favor, com especial atenção, a parte do “bem resolvida moralmente”.

  5. Tiger permalink

    Excelente
    Sou homem e acho uma opressão essa cobrança pra eu ser cavalheiro na sociedade
    Não devo nada as mulheres que eu não conheço, não tenho necessidade de ser cordial com elas.

    Pelo fim do cavalheirismo !

  6. Chico permalink

    Senhorita, qual é o problema de eu ser um cavalheiro? Se não gosta, venha cá que te dou um abraço.

  7. Chico permalink

    E pra vocês, o que é machismo?

  8. Chico permalink

    Eu só acho que o movimento [feminista] pretende lutar contra a liberdade individual, incluindo a das mulheres, e não pelas mulheres.. a típica feminista não quer saber das mulheres que escolhem uma vida caseira ao lado do marido, como “donas do lar”. Não! Essas são vítimas do machismo da sociedade, de uma imposição do sistema, e precisam ser salvas… mulher que gosta de ser mãe e de cuidar dos filhos, que adora receber flores e ser bem tratada pelo marido, essa é uma “traidora” do movimento..
    olha gente… se cuidem.. vejam bem onde estão pisando!
    e quero alertá-los ainda para abrirem os olhos para não encaminharem as coisas para o lado errado, e depois se arrependerem… por que depois não a mais volta.. não adianta chorar o leite derramado..

    • eu sugiro que vc conheça um pouco mais sobre o feminismo, ao invés de se agarrar a essa realidade que vc criou dentro da sua cabeça. beijão

  9. camila permalink

    falar do feminismo sem ler/estudar/conhecer/discutir/viver o feminismo e ainda querer me alertar sobre ele… preguiça ou mansplaining?

  10. Chico permalink

    .. nem tudo é mansplaining..

    Boa Sorte!

  11. Troco chuveiro, lâmpada, descasco abacaxi, abro pote de palmito… Gentileza tem que ser universal, e tem omi que não entende isso nem se a gente desenhar.

  12. Sempre que eu pegava ônibus para ir ao meu trabalho, tinha mulheres jovens e homens idosos no ponto, quando ele chegava eu me posicionava ao lado da porta e deixava as mulheres subirem primeiro em seguida os homens idosos, fazia isso porque não corria o risco de ser molestado por algum tarado ficando em pé, ou ter algum osso fraturado caso houvesse uma parada brusca, que sabemos que acontece, fazia isso por ter mulheres e idosos na minha família, e e esperar a mesma consideração com eles. Em outra ocasião, andando com uma amiga, ela disse que se sentia segura comigo porque ninguém mexia com ela na rua, tenho costume de deixar a mulher do lado da calçada, mas uma outra amiga dizia que não gostava disso, até aí tudo bem, mas ao subir uma ladeira ela ficou do lado da calçada, uma van passou a toda velocidade e me acertou no ombro com o espelho lateral, se fosse ela seria na cabeça e seria fatal. Outro dia, um vizinho veio á minha porta pedir ajuda com a mudança dele, e me disse: somos homens pequenos! Eu sou um fisiculturista gigante, não sou melhor que ninguém por isso, não ofereço ajuda a quem não precisa, independente do gênero/sexo, mas se precisa e posso ver que sim, então ajudo, isso eu chamo de cavalheirismo, não “machismo opressor” ou “misoginia” tão pouco superioridade masculina.

    • vc quer o que, um tapinha nas costas e parabéns?

      • Não entendi o porquê de sua ironia, apenas ofereci um ponto de vista diferente sobre algo que você enxerga apenas como ruim, mas que inegavelmente tem um lado bom também. Ninguém abre a porta do carro, puxa a cadeira ou faz qualquer gesto de gentileza para uma mulher por se achar melhor que ela, por considera-la fraca e incapaz de fazer por si mesma, isso é apenas educação, ainda mais no mundo de hoje, em que as mulheres já provaram que são muito eficientes em atividades outrora exclusivamente masculinas e que bom que sejam. Mas educação e gentileza, isso anda faltando e muito nas pessoas, basta ver nos telejornais as noticias de que qualquer bobagem é motivo para agredir ou matar os outros. Mas respondendo a sua pergunta, não quero e nem espero nada, apenas reproduzo a educação que tive e lamento que mais pessoas não seja assim, não menosprezo, tão pouco subjugo mulheres com esses gestos, ao contrário as valorizo muito. E sim, vocês precisam de proteção, se não fosse assim, não existiriam leis como a Maria da Penha, mas não por serem “frágeis” e sim porque existem homens canalhas, esses não são cavalheiros, são misóginos mesmo.
        E como você mesma disse: “Caberia ao homem, mais forte, se esforçar para compensar nossa fragilidade natural e facilitar nossa vida.” Isso é o que eu chamo de cavalheirismo!

Trackbacks & Pingbacks

  1. Cavalheirismo: Gentileza Às Avessas | Colunas Tortas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: