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Apenas um desabafo

abril 27, 2013

Quando eu tinha uns 15 anos, minhas colegas de turma reclamavam que eram assediadas por um professor quando saíam de sala para beber água ou ir ao banheiro. Eram tantas reclamações que eu passei dois anos da minha vida sem sair da aula dele pra nada. Nunca tive coragem de falar nada.

Antes disso, aos 11 anos, eu tinha acabado de começar a andar sozinha por onde moro. Voltando da escola, un grupo de adolescentes mais velhos (acho que eram uns 5) me cercou e começou a passar a mão em mim. Não durou mais do que alguns minutos, mas parece que fiquei ali naquele cerco por uma eternidade. Não lembro se chorei. Não contei aos meus pais por medo que eles suspendessem minha recém conquistada liberdade de andar sozinha. Passei a voltar pra casa por outro caminho. Passei um bom tempo com medo de passar pela escola onde os adolescentes estudavam.

Aos 19 anos, estou saindo de casa para uma aula de dança. Acho que a rua estava um pouco vazia. No sentido contrário a mim, vinha um homem de bicicleta. Ele parou no meio da rua, começou a dizer coisas que não entendi e tirou o pau pra fora. Apertei o passo e torci pra ele não ir atrás de mim.

Aos 20 anos, saía da faculdade num ônibus muito lotado. Mal tinha espaço para eu ficar de pé. Atrás de mim, um homem roçava o pau duro na minha perna. Eu quis chorar, gritar, mas tudo que consegui fazer foi ficar de pé em outra parte do ônibus, longe daquele nojento.

Hoje, aos 22 anos, um homem estava se masturbando dentro de um ônibus e, quando eu já tinha descido, teve a audácia de me mandar um beijinho. Xinguei o infeliz bem alto. Não sei se teria coragem de reagir se ele também estivesse na rua, confesso que o medo falaria mais alto. E, apesar de ter reagido e até fazer piada com uma amiga que me acompanhava, eu fiquei em choque. Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.

Medo é o que define a vida de tantas mulheres. Nós pensamos nossa rotina de acordo com alguns de nossos maiores medos: temos medo de andar sozinhas, de ser a próxima vítima, de não ter coragem pra reagir. Dá pra dizer agora que conheço esse medo por pelo menos metade da minha vida. Ou seja, desde que passei a ter alguma autonomia.

Não dá pra pensar que vivemos em um mundo minimamente civilizado quando metade da população passa a vida com medo. E me dói pensar que muita gente não enxerga isso, que minimiza e naturaliza essas violências (mesmo que ela ocorra na frente das câmeras entre gente famosa, como foi o que ocorreu com a Nicole Bahls) e que incentiva uma cultura de masculinidade que não faz bem a ninguém. São 11 anos assim e a única certeza que tenho é que a sociedade continuará misógina por mais algumas décadas até melhorar.

Hoje eu até consigo levantar a voz, mas o medo continua ali, sendo parte de mim, moldando meu comportamento, me fazendo viver para evitá-lo. Foi assim que me ensinaram.

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From → feminismo

7 Comentários
  1. Li Wilheim permalink

    Um homem se masturba e nos olha no banco de tras do ônibus e quase achamos normal – afinal, ja ouvimos (e vivenciamos) tantas histórias parecidas que isso não nos choca mais. E pra quem diga que isso é normal, e que devemos nos sentir “honradas” em fazer parte do enredo da punheta de alguém: isso não é uma situação de sedução, isso é uma forma de amedrontar e mostrar poder. Como são todas as outras situações que você relatou. E todas aquelas que nós vivenciamos.

  2. JRMB permalink

    E o pior é que vemos tudo isso todos os dias na midia como sendo algo “normal” e “aceitável”. Vemos até pessoas com um nível social e educacional altos e com uma visão de mundo totalmente sexista. Eu fiquei muito chocada quando li esta HQ http://revoltahq.blogspot.com.br/p/capitulo-5.html . O machismo imbutido nela é gritante!!! Mulheres não se revoltam nem participam de nenhuma decisão, são sempre as namoradinhas e esposinhas que esperam os homens em casa e se preocupam com eles, ou são as putas histéricas, peitos e bundas sem identidade. Essa é a mentalidade da nossa juventude de hoje! Lamentável!

  3. Priscila permalink

    E isso é a realidade de todas, principalmente daquelas que não andam de carro 24 horas. Eu vivi situações aos 11, 17 e 19 anos que me tiraram total tranquilidade para andar sozinha. Aos 19 eu sofri uma tentativa de estupro na minha própria porta de casa ás 11:00 da manhã, nunca mais consegui sair de casa sem medo, angústia e apreensão.

    • Ai, Priscila, que tenso! Sinto muito por isso, é muito doloroso passar por uma coisa dessas.
      Já tentou buscar ajuda psicológica, querida?

  4. Priscila permalink

    Pois é Karla, é mais doloroso quando vemos que é comum, no mesmo dia esse mesmo cara abordou duas meninas e não foi encontrado. Eu nunca busquei ajuda psicológica, acho que estou enfrentando bem a situação, mas não posso negar que quando estou sozinha não sou das mais tranquilas. O que me deixa mais triste é pensar que essa é a realidade de muitas e que a sociedade fecha os olhos perante essas situações.

  5. Bia permalink

    Aos 12, estava de saia dentro do ônibus e um nojento já de cabelos brancos passou a mão na minha bunda. Fiquei tão assustada que não fiz nada. Aos 24, voltava da faculdade a noite e, muito cansada, acabei cochilando no ônibus. Acordei com a mão do cara do meu lado na minha coxa. Gritei, xinguei e ninguém, num ônibus relativamente cheio, fez nada.

  6. Triste mais acontece com a gente todos os dias, uma das primeiras lembranças que tenho de assedio foi quando estava entrando na puberdade. Eu escondia meus seios q estavam crescendo vestindo varias blusas, mesmo assim escutava homens mais velhos falando que queria chupar eles etc. Aos 14 anos estava indo embora da escola e um homem simplesmente começou a se masturbar, tive muito medo. Cheguei em casa contei para minha mãe e não queria mais ir na aula. Aos 19 no meu primeiro emprego um filho da puta sempre ia para estação para pegar o onibus q ia para a minha empresa, como era telemarketing a maioria mulheres, por 2 vezes ele se esfregou em mim, na primeira eu não acreditava no q estava acontecendo, na segunda chinguei e sai do lugar, o que mudou foi q ele foi se esfregar em outra moça, tds nos sabíamos e evitavamos ir no msm ônibus que ele, porem ele entrava por ultimo, hj vejo como fui boba por não ter feito nada, mas acontecia com tds e ngm sabia como reagir. Aos 23 anos (ano passado) sai para comprar umas coisas e voltei as 22 hrs, a rua estava deserta um rapaz parou a moto e começou a me agarrar, eu fiquei sem reação o medo paralisava minhas pernas, nesse momento passou um carro e vinham 2 pessoas na rua, ele me largou. Hj ando na rua com medo…luto pelos meus direitos, vou a manifestações, tendo não me privar de nada, mas confesso que tenho medo

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