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Psicologia cristã (ou como aprendi a parar de me preocupar e amar o dinheiro)

fevereiro 23, 2013

Há mais ou menos um mês, graças a uma entrevista concedida por um famoso pastor carioca, explodiu nas redes sociais uma discussão quase restrita aos conselhos regionais e federal de psicologia: mas como assim ainda não cassaram o registro do Malafaia? COMO ASSIM ELE TEM UM REGISTRO????

Eu sei, gente. Também fico desapontada em pensar que terei um colega de profissão como ele.

vocês se constrangem, me constrangem

malafa se constrange, me constrange

Desde a entrevista com a Marília Gabriela, o posicionamento (na minha opinião, omisso) do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro tem sido questionado por toda a sociedade. Há, inclusive, mobilizações para que o registro dele seja cassado. É uma questão complicada, mas que tem meu total apoio. O CRP tem que ser pressionado a dar uma resposta à sociedade. Sem contar que a seriedade da regulação da profissão fica bem comprometida quando se pensa que ATÉ ESTE INDIVÍDUO pode sair por aí dizendo que é psicólogo e usando essa autoridade para falar coisas descabidas.

“Mas, Karla, há pelo menos vinte anos a comunidade científica é unânime em afirmar que a homossexualidade é apenas mais uma expressão da sexualidade humana. Nem o psicanalista mais ortodoxo afirmaria que homossexualidade é perversão. Por que essas pessoas se apegam tanto a isso?”

A resposta longa envolve a luta pela cidadania dos movimentos LGBT, a dificuldade de se estabelecer um paradigma para a psicologia (dependendo da linha teórica, dois psicólogos podem discordar completamente a respeito do mesmo assunto) e a longa tradição das grandes religiões institucionalizadas de controlar a humanidade através da sexualidade.

A resposta curta: dinheiro. Muito dinheiro.

Sei que todo mundo já percebeu isso há muito tempo, mas não custa deixar claro. Não se trata de bíblia, de cristianismo, dos ensinamentos de Jesus, muito menos das implicações éticas do exercício da psicologia. É grana, gente. É só pensar em quanta perseguição os homossexuais ainda sofrem na sociedade. Não faltam casos de crimes brutais contra a população LGBT. Mesmo os que não chegam a sofrer violência física precisam lidar com bullying durante a vida e, é claro, com o medo de ser rejeitadx pela família, pelos amigos e, em alguns casos, pelas igrejas que frequentam. Religiões ainda exercem uma força muito grande na construção da subjetividade das pessoas e isso não pode ser ignorado. Tudo isso pode causar grandes danos à vida emocional de uma pessoa. E qual é mesmo o profissional mais indicado para ajudar uma pessoa a lidar com problemas emocionais?

Isso me lembra as aulas de história em que aprendi o que era um truste. Sabem aquelas organizações que controlam todas as etapas de produção? Digamos que uma empresa vende suco de laranja industrializado e, ao mesmo tempo, é dona dos latifúndios onde se plantam as laranjas, da empresa que faz o transporte delas até a fábrica, além de ser dona da empresa que produz as caixinhas e do supermercado onde se vende o suco. Então. Estamos falando de um truste de sofrimento. Basicamente, essas igrejas ajudam a criar o sofrimento e depois vendem a solução pra isso.  O que é uma bela oportunidade de lucro, se você for um canalha sociopata.

Longe de mim afirmar alguma coisa sobre o caráter dos ditos psicólogos cristãos que vendem a cura do homossexualismo. Imagina. Só deus pode julgá-los.

deus julgando vocês

deus julgando vocês

Então, nessa questão toda, só o que interessa é que em 1999 o Conselho Federal de Psicologia determinou que não se pode oferecer cura ou tratamento para algo que não é uma patologia. Todo o resto é chororô de alguém que não quer perder uma fonte de autoridade e dinheiro.

mimimimi poxa vida ajudael

Antes de encerrar este post, quero falar um pouco de como um psicólogo pode lidar com esse tipo de queixa. Na minha (pouca) experiência clínica, as principais queixas de homossexuais insatisfeitos com a própria sexualidade se tratavam de auto-estima baixa, medo de rejeição e o sofrimento por acreditar que um aspecto tão importante de suas vidas é algo abominável. Se estas queixas lembram um pouco o discurso impregnado na sociedade e validado pelas grandes igrejas… É porque são a mesma coisa. Como eu disse, é muito difícil ficar ileso numa sociedade que se esforça pra deixar claro que você é uma aberração.

É claro que ajudaremos os pacientes que trouxerem queixas semelhantes. Ao contrário do que diz certos psicólogos de religião, a resolução 001/99 do CFP não nos proíbe de atender pacientes que nos trazem esse tipo de queixa. Mas é importante deixar claro que um psicólogo não pode oferecer sequer a possibilidade de mudar a sexualidade de alguém através de qualquer tipo de psicoterapia. Se vocês ouvirem algo parecido, podem denunciar ao CRP na hora. Além dessa proibição ética, não há evidências de que terapias psicológicas são capazes de modificar a orientação sexual de alguém. Quem promete isso só quer ganhar dinheiro com o sofrimento alheio.

E, se aprendemos alguma coisa, é que intolerância dá lucro

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3 Comentários
  1. Boa noite!

    Pois bem, concordo com vários aspectos do seu texto… entretanto, apenas o começo dele me deixou intrigada. Como Psicóloga, acredito que o Conselho Federal de Psicologia me representa, representa os meus interesses e representa interesses de classes minoritárias com campanhas e posicionamentos precisos.

    Sobre a cassação do registro de Psicólogo do Silas, bom… você está certa de que ele de fato possui registro? Afinal, o que sei a respeito deste homem é que ele possui uma graduação, o que não quer dizer exatamente que ele seja “psicólogo”. O Conselho deu a intimada máxima, superior, provavelmente, à qualquer medida punitiva: nota de repúdio pública. Das duas uma: ou esse registro não existe, ou alguma burocracia empaca esse processo. Não achas?

    Abç,
    Rosa Amarela.

    • Dá pra ver isso no site do CRP-RJ. Faz tempo que conferi, mas ele tinha CRP sim. E cheguei a conversar com gente do conselho sobre ele… A cassação é mais complicada por motivos burocráticos, na minha opinião.
      Beijos

  2. Difícil acreditar que esse cara tenha algum respeito fora da igreja. O foda é que a igreja dele tem uma porrada de adeptos, uma porrada de gente que “sabe” que ser gay é ruim e que “precisa” parar de ser gay, parar de ter qualquer inclinação, qualquer coisa.

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