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O escudo da religião

fevereiro 18, 2013

Escrevi este post há muito tempo, após conversar sobre o assunto com algumas amigas. Achei pertinente postá-lo após algumas tragédias recentes, como a que aconteceu com Malala e com uma jovem indiana.

Toda vez que se fala do machismo em outras culturas, as pessoas tendem a ficar cheias de dedos ao criticá-las. Afinal, que direito nós temos de dizer que um país inteiro, do qual não fazemos parte, está errado?

A hesitação em criticar, em si, é até positiva. Sinal de que pensamos duas, três vezes antes de falar alguma coisa que possa dar a entender que a nossa cultura é um padrão universal e superior que todos deveriam seguir. Ou seja, sinal de que aprendemos meia dúzia de coisas com a nossa História recente.

O respeito à diversidade não significa que uma cultura está acima de críticas e que a gente deve aceitá-la assim mesmo. Se fosse assim, a gente teria que aceitar o machismo existente no Brasil como mera parte da nossa cultura e dizer amém para ele. E acho coerente dizer que, se posso criticar o machismo da cultura brasileira, posso fazer o mesmo com a cultura de outros países americanos, europeus, árabes, asiáticos, africanos.

Culturas não são blocos monolíticos que permanecem estáveis ao longo dos séculos. Pelo contrário, elas são construídas e renovadas o tempo inteiro. Trabalho infantil, por exemplo, é algo que fez parte da nossa cultura por muito tempo, principalmente quando éramos um país majoritariamente rural – embora ele ainda exista, ninguém acha que é aceitável. O que move a renovação é o questionamento crítico.

Em lugar nenhum do mundo.

Esse assunto fica mais delicado quando a crítica é direcionada a religiões, especialmente a muçulmana. Dá pra entender: não é de hoje que o Ocidente faz críticas nada construtivas aos muçulmanos, especialmente quando são dos países árabes. A questão política é bem importante nisso. Não é à toa que o Irã recebe duras críticas da comunidade internacional, enquanto ela finge que não vê os absurdos que ocorrem na Arábia Saudita. Os três estão errados. E a comunidade internacional deveria fazer mais pressões diplomáticas para que os dois países revejam a maneira como as mulheres são tratadas. Como a África do Sul errou com o Apartheid, mas sofreu pressões internacionais de maneira a repensar aquele sistema torpe.

Entendam: não quero dizer que cabe ao Ocidente esclarecido salvar as pobres mulheres oprimidas do resto do mundo. Existe muita opressão entre nós e existem muitas mulheres que lutam contra a opressão em seus próprios países.

Gang Gulabi, o exército do Sari Rosa. Mulheres indianas que defendem outras mulheres de violência doméstica, lutam para combater o casamento infantil, eliminar o sistema de dote e eliminar o analfabetismo feminino.

Quero dizer apenas que o papel de certos órgãos internacionais é (ou deveria ser) garantir que a dignidade humana seja preservada. É verdade que nem todo país do mundo se organiza da mesma forma ou aceita que existam alguns direitos básicos e invioláveis. Nós aqui do Ocidente demoramos um bocado para entender isso e nem sempre colocamos em prática. Mas todo mundo concorda que um país que faz parte da ONU, por exemplo, tem que seguir as regrinhas instituídas pela organização, certo? Uma dessas regrinhas é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O que eu defendo é que isso deve valer para todos. Deve valer para o Irã, a Arábia Saudita, a China, o Brasil e os EUA. Deve valer quando se fala em erradicar o trabalho escravo, a tortura, o analfabetismo, a exploração sexual e a violência contra a mulher. Se a coisa não é bem assim na prática, como sabemos que não é, a conversa já é outra. Quando organismos internacionais fecham os olhos para violações hediondas aos Direitos Humanos mais básicos, não se trata de respeito à diversidade, mas de política.

No caso dos imigrantes, acho realmente necessário tomar cuidado para que o bem-estar das muçulmanas não seja apenas um disfarce para políticas xenofóbicas de extrema-direita. O que, convenhamos, é muito mais provável que aconteça no cenário mundial atualmente. Nenhum imigrante deve abrir mão de sua identidade cultural ao entrar em um novo país. Mas é importante que todos entendam como aquela sociedade funciona, até como um meio de se inserir nela. E é fundamental que o Estado não coloque a diversidade de culturas acima de direitos fundamentais da população. Nenhum Estado deve aceitar que um pai mate a própria filha porque ela não é mais virgem, por exemplo, independente da religião e da nacionalidade dos indivíduos. E se em um determinado país, as mulheres que pertencem a certo grupo étnico se encontram em situação de vulnerabilidade, é obrigação do Estado garantir que sejam protegidas.

Nas duas situações que falei acima, nenhuma intervenção pode dar certo se as mulheres não forem ouvidas. Isso é a diferença crucial entre criar e implantar medidas que buscam garantir a vida e a dignidade dessas mulheres e uma mera imposição do Ocidente esclarecido e salvador. Para saber se, quando e como intervir em situações tão críticas, é necessário dar ouvidos a quem tentamos ajudar. Todas essas mulheres têm muito a dizer. Basta alguém querer ouvir.

Cultura não é carta branca pra machismo e não é algo intocável, acima de críticas. É importante parar pra pensar o quanto da nossa crítica é etnocêntrica: acho que um bom exercício é pensar quanto machismo da nossa cultura a gente deixa passar como sendo “natural”. Se você acha normal que seu vizinho faça/diga alguma coisa machista, por que condena o estrangeiro? Acredito que uma crítica não-etnocêntrica ao machismo seria aquela que você faria independente de @ criticad@ ser seu vizinho, uma pessoa de outra cidade ou outro país.


Com a palavra, ministro Ayres Britto. Somos ocidentais, mas somos mesmo “civilizados”?

É importante não transformar a crítica num julgamento implacável porque isso mata o diálogo. Se aquele indivíduo sentir que estão atacando algo tão importante quanto sua cultura, ele nem vai se dar ao trabalho de pensar no que você diz. Ele nunca vai repensar aquilo que acredita ser tão certo e natural. E aí, não importa se você só queria trocar uma ideia bem-intencionada sobre a situação das mulheres muçulmanas com aquela sua amiga muçulmana do intercâmbio: já era. O diálogo nem começa e tudo fica na mesma.

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