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Meus dois centavos sobre 50 tons de cinza

dezembro 1, 2012

Não tinha certeza se seria importante falar sobre o fenômeno 50 tons de cinza depois de tudo que vem sendo dito. Sim, preciso admitir que sou daquelas que não leram e não gostaram. Sei que é prepotente da minha parte e – ok, confesso – meio cult demais, mas eu costumo desconfiar de fenômenos literários, especialmente aqueles que são vendidos para mulheres. Estou longe de ser o tipo de pessoa que só lê clássicos densos sobre questões existenciais. A qualidade literária dessa trilogia é o que menos importa. O que me deixa incomodada é ver algo, qualquer coisa, ser vendido como “o que toda mulher deseja”. Porque, na maior parte dos casos, trata-se de uma cilada.

Essa trilogia segue a linha tradicional de um backlash muito mais antigo, ao afirmar que, apesar de toda a independência conquistada pelas mulheres, o que elas querem de verdade é um relacionamento mais tradicional, no qual ela acaba sendo mais submissa a um homem mais velho, experiente, provedor. Esse papo tem pelo menos uns 30 anos de idade, mas foi recauchutado e está sendo vendido como algo muito legal e desejável para uma geração inteira. Não tem como dar certo…

De acordo com o que li sobre o livro (na maior parte, como se pode ver pelos links que coloquei ali em cima, eram críticas), dá pra concluir que o relacionamento dos protagonistas Christian e Ana é abusivo. Não pelo fato de praticarem S&M, aliás, isso é quase irrelevante não fosse a maneira cretina como essa prática sexual é tratada: quase como um vício, um trauma do qual ele precisa se livrar. Além disso, o protagonista é um cara controlador e obsessivo em relação à namorada. A protagonista agüenta tudo isso e se submete a ele na esperança de ser sua salvadora, aquela mulher que vai tratar suas falhas de caráter através de paciência, amor, compreensão. Se  isso parece uma relacionamento abusivo é porque é mesmo. Lutamos contra esse mal de todas as formas por décadas, aí vem essa trilogia e ajuda a empurrar o exato oposto para um monte de mulheres impressionáveis. Curiosamente, todas as fãs deste livro que conheci (umas três ou quatro) eram um tanto conservadoras sexualmente. Fica a dica aí pra quem gosta de fazer pesquisas nas áreas de literatura e sexualidade.

E aí chegamos ao ponto que me incomodou particularmente, tanto que me motivou a escrever isso tudo. Todo o livro gira em torno da sexualidade de Ana, a protagonista. O que, a princípio, seria legal, mas não traz nada de inovador ou libertador pra sexualidade feminina. Isso porque existe uma idéia muito forte de que nossa sexualidade só existe em função do homem, mais precisamente da penetração (que pode ser, de fato, deliciosa, mas o sexo é bem mais que isso). Quem nunca foi xingada – ou xingou alguma de nós – de mal-comida que atire a primeira pedra. A idéia por trás disso não poderia ser mais clara: tudo que uma mulher precisa é um cara que mete bem e a faça gozar loucamente, várias e várias vezes seguidas.

Agora vamos à história de Ana: moça americana, universitária, de 21 anos, sem qualquer histórico de uma educação repressora (que eu tenha visto até agora) tem experiência sexual absolutamente nula. E não falo de ser penetrada. Aos 21 anos, a jovem protagonista sequer tinha trocado beijos com alguém (que eu saiba, pois a vida de Ana parece ter início ao encontrar Christian. Significa) ou sequer se masturbado. Aos 21 anos.

Masturbação não é apenas para homens. Alguém avisa isso a quem lê esse livro? Grata.

Masturbação não é apenas para homens. Alguém avisa isso a quem lê esse livro? Grata.

Ok, masturbação é tabu pra boa parte das mulheres. Nem vou entrar nesse assunto porque ele seria motivo de um post bem maior. Mas aí ela conhece Christian, o pica das galáxias, e, já na sua primeira vez, goza loucamente. E goza loucamente quase todas as vezes em que faz sexo com o protagonista. Precisa falar mais alguma coisa? Tudo o que precisamos é de alguém que nos faça gozar loucamente, como se não tivéssemos controle algum sobre nossa sexualidade ou a mínima possibilidade de aproveitar uma experiência sexual sem penetração.

Algum tempo atrás, tive uma breve aula sobre comportamento sexual e disfunções sexuais. A maior parte delas está ligada a crenças irreais a respeito de como se deve agir durante o sexo, por exemplo, a idéia de que toda mulher é capaz de ter orgasmos múltiplos e intensos só com penetração. E, é claro, grande parte dessas crenças são formuladas ao longo da vida a partir do que vamos ouvindo dos pais, dos amigos, da família, da mídia. Tipo essa trilogia aí.

Então, enquanto esses livros podem estimular muitas mulheres a explorarem melhor sua sexualidade (e espero que o façam), o que tende a acontecer é o oposto,  que tenham crenças ainda mais irreais de como deve ser o desempenho sexual de uma mulher: dependente de uma super pica das galáxias. Quando, na verdade, é impossível ter uma sexualidade saudável com tantas expectativas surreais depositadas no outro, quando não se conhece o próprio corpo e os próprios desejos. Nada que eu vi sobre tal trilogia até agora chega remotamente perto disso. Resumindo, é tão ruim para a sexualidade feminina quanto as revistas Nova da vida que têm infográfico pra você, mulher, que ainda não encontrou uma pica das galáxias pra chamar de sua, poder fingir um orgasmo verossímil.

Enquanto isso, fico no aguardo de um best-seller tão celebrado pela mídia que seja realmente libertador para a sexualidade feminina. Infelizmente, parecemos muito distantes disso.  Mas, enquanto esse dia não chega, vamos explorar a nossa sexualidade – mesmo que tentem nos convencer do contrário.

É OK espiar. Saber é poder!

É OK espiar. Conhecimento é poder!

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10 Comentários
  1. Pablo permalink

    Texto medíocre…

  2. Pois é, um bom tema a ser discutido. Concordo com a opinião da autora do artigo. Fico pensando o que leva essas leitoras de “Sabrina” disfarçadas a buscarem este tipo de entretenimento. Uma vida um tanto quanto desinteressante seria a mais possível resposta. Sei que ainda existem muitas mulheres deste tipo, que colocam total expectativa de felicidade em um homem, subjugando suas próprias vontades, valores, etc. É o que a sociedade nos ensina direta e indiretamente desde que somos pequenas. Mas acho importante sublinhar que aquelas mulheres que rompem com este estereótipo submisso, que tomam iniciativas (inclusive durante a fase da “conquista”), que tem personalidade e opinião forte, etc, também incomodam até mesmo homens que dizem admirar este tipo de mulher. Na verdade, até creio que exista uma admiração, mas, como disse um amigo querido e um tanto quanto sensível ao assunto, falta “protocolo” para lidar com este tipo de “mulherão”. Os homens, de um modo geral, ainda se assustam com mulheres de iniciativa e, talvez por estarem imersos numa cultura machista, não sabem muito bem como lidar com elas. Portanto, homens queridos, revejam também seus valores, quebrem paradigmas para terem aos seus lados mulheres que não sejam meras coadjuvantes. Acho que a postura masculina de um modo geral, tb cria “Sabrinas modernas”, o que para muitos é cômodo e satisfatório, mas, se não mudarem este jeito de agir/pensar, não conseguirão compreender e degustar a verdadeira essência de uma mulher.

  3. Joao permalink

    Acho hipocrisia de algumas pessoas simplesmente não admitirem que se trata de pornografia, horas, o livro gira em torno da sexualidade, além disso temos descrição do ato. Temos hoje nas bancas por exemplo aqueles contos de bolso que não diferem muito, apesar da qualidade da escrita. Vcs(fãs puritanas do livro) fingem que não e pornografia e nos(quem n aprovou o livro) finge que acredita. Ótimo artigo

  4. Gostei muito do blog. Esse Pablo é um mal-amado, porque seu texto é muito bom.

  5. Fernanda permalink

    Adorei o texto!! Aliás, estou lendo o livro e achando-o muito machista. É uma vergonha, no século que estamos, a sexualidade feminina ainda ser retratada deste modo.

  6. Eu concordo com tudo o que você disse, por mais que eu não tenha idade suficiente para entender disso.
    Minha mãe leu essa trilogia e ela fala do casal como se fossem a melhor coisa, só que não são. Aos 21 anos essa Ana era uma purinha e já “gozou loucamente” isso é bem idiota. Eu nunca li a estória, mas nem pretendo depois de perceber o rumo que ela toma. Enfim.

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