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Cinco estereótipos de gênero que costumavam ser o exato oposto

outubro 30, 2012

Tradução de um texto muito bacana do site Cracked, em inglês. Fala de cinco estereótipos de gênero: rosa é cor de menina, homens não choram, TPM nem sempre deixou as mulheres irracionais, estereótipos gays mudaram muito e a influência econômica sobre o que é definido como lugar de homem ou lugar de mulher. Recomendo visitar o texto original.

Os estereótipos mais difíceis de serem quebrados são aqueles tão antigos que vêm da época das cavernas. Afinal, quem pode discutir com a biologia? Mulheres carregam os bebês, homens têm força física nos membros superiores para abaterem uma gazela. Ninguém inventou isso do nada.

Mas se a sociedade nos ensinou uma coisa, é que é muito mais fácil expandir isso e declarar que todos os estereótipos sexuais e de gênero surgiram no início da evolução humano. É claro que, na verdade…

5. “Rosa é cor de menina” é uma ideia recente

Para a maioria das famílias, descobrir cedo o gênero de seu bebê é crucial, já que todo mundo precisa saber qual a cor dos brinquedos e roupas que serão compradas: rosa ou azul? Quase imediatamente depois de nascer, uma criança é vestida com seu uniforme de menino ou menina (uma camiseta azul ou uma tiara rosa, respectivamente) para que não haja confusão. Você não quer que seu filho vire gay, quer?

Margaret, tire o pequeno Steve dessas roupa agora mesmo

Se é uma menina, não esqueça de pintar o quarto de rosa e comprar cortinas cor-de-rosa. Rosa é uma cor inerentemente feminina e que nos faz pensar em flores e aromas doces e delicadeza, enquanto azul é, uh, futebol, caminhões da Chevrolet… Smurfs… Aquela garota-lagarto pagando peitinho em Avatar…

Mas, em outros tempos…

Se isso tudo está começando a parecer bem arbitrário, é porque é mesmo. Até o começo da Primeira Guerra Mundial, as pessoas não se importavam com a cor das fraldas de suas crianças, porque era o Século XIX. A cor do tecido abaixo do cocô de neném é a última coisa que você tem em mente quando precisa lidar com taxas de mortalidade infantil extremamente altas, a Guerra Civil, cólera e um monte de lobos devoradores de crianças (olha, aquela época era difícil, ok?).

Não se preocupe, Junior, os cães são seus amigos!

Por sorte, todas as questões de gêneros foram cordialmente resolvidas lá pelos anos 1910, quando foi decidido que nós designaríamos cores para cada “equipe”: azul era para meninas e rosa era para meninos. Não, isso não foi um erro de digitação: um editorial de 1918 do Earnshw’s Infants’ Department declarou que rosa era “uma cor mais decidida e forte… Mais adequada para o garoto; enquanto azul, que é mais delicado e gracioso, é mais bonito para a menina”. Faz sentido: rosa é a cor de um suculento e masculino filé cru, ou do sangue de seus inimigos espalhado em um uniforme branco.

É por isso que o Matt Stone parece muito mais masculino que o Trey Parker.

Mas as coisas começaram a mudar em 1927, e houve uma discordância sobre qual gênero deveria ter qual cor: a revista Time até publicou uma tabela mostrando quais lojas estavam defendendo cada opção. Somente nos anos 40 as cores foram trocadas e os publicitários decidiram deixar o rosa para as meninas.

Isso vai além das cores também, aliás. Por exemplo, olhe para este bebê:

Naquela época, botas de couro até as coxas eram coisa de crianças, não de dominatrixes

Fofinha, né? Vamos ver como ela ficou ao crescer:

Ela é a que está na cadeira de rodas

Sim, é o Franklin Delano Roosevelt naquele vestido. Naquela época, era comum jogar todo bebê em um vestido, porque quem se importa? Então, o real perigo de vestir seu filho de maneira andrógina é que ele acabe sendo eleito presidente dos EUA quatro vezes seguidas.

4. Chorar costumava ser um símbolo de masculinidade

Teste surpresa: qual a diferença entre Bruce Willis e Ben Affleck? Resposta: quando ambos ficaram com a tarefa de impedir que um meteoro destruísse a Terra, um deles chorou e o outro salvou o mundo.

este não é o herói

Um homem chorando em um filme só pode significar duas coisas: ou esse cara perdeu o controle, ou ele faz mais o tipo delicado e romântico do que de um herói de ação. É por isso que o Leonardo DiCaprio já derramou algumas lágrimas em quase todos os filmes em que esteve, enquanto nós temos certeza que o Liam Neeson em Taken sequer tem canais lacrimais. É natural: nós vemos os homens que choram como fracos e toscos — como mocinhas covardes, se preferir.

Mas, em outros tempos…

Quando os épicos da Antiga Grécia começaram a ser colocados no papel, você pode ter certeza de que as páginas estavam manchadas com as lágrimas de seus protagonistas chorosos. Odisseu (o cara que matou um Ciclope e venceu a Guerra de Tróia) derramava lágrimas constantemente: pelo menos uma vez foi só porque ele ouviu uma música emotiva. Isso é porque na cultura da Grécia Antiga, “esperava-se que homens chorassem se a honra de sua família estivesse em jogo”. Um dos grandes sinais de verdadeira masculinidade era derramar lágrimas.

“Choro, pois devo estrangular uma bela criatura com minhas próprias mãos”

Tá, mas essa era a Grécia, né? Todos eles eram meio andróginos! Ao contrário: essa ideia era comum na maioria das culturas, passando pela Idade Média até o Período do Romantismo. Samurais japoneses, heróis medievais e até o próprio Beowulf choravam como bebês em suas aventuras. Até uma época tão recente quanto o século XIX, lágrimas masculinas eram celebradas como um sinal de honestidade, integridade e força. E não no sentido de “você é forte o suficiente para mostrar sua fraqueza!”, mas apenas como um símbolo de você realmente se importava. E provavelmente também significava que você tinha a certeza de que ninguém iria te zoar, já que você tinha acabado de vencer uma batalha ou arrancar os membros de um monstro com suas próprias mãos.

3. TPM nem sempre tornou as mulheres irracionais

Ah, qual é, todo mundo conhece a Tensão Pré-Menstrual, ou TPM. É aquela época do mês em que o ciclo menstrual de uma mulher a transforma numa máquina irracional de gritar. É por isso que nunca poderemos ter uma mulher presidente: nós teríamos uma guerra a cada 28 dias! (Porque são os presidentes que decidem se vamos ou não para a guerra) É por isso também que mulheres precisam ficar na cozinha e preparar nossa comida porque sexismo sexismo sexismo sexismo.

Acabamos de jogar uma bomba nuclear no Canadá porque estes vestidos nos deixam gordas

Mas, em outros tempos…

Mesmo que cientistas sempre tenham tentado encontrar razões para diminuir as opiniões femininas considerando-as irracionais, suas desculpas para isso sempre foram bastante inconsistentes. Lá na Grécia antiga, Hipócrates dizia que a culpa pelo mau humor feminino era do útero, que saía do lugar e bloqueava o coração, o que significava que ela deveria fazer bastante sexo para colocá-lo em seu devido lugar.

Quando o sexo passou a ser considerado pecado com a ascensão do Cristianismo, esses rompantes “irracionais” de raiva começaram a ser consequência de excesso de sexo. Aí, no final do século XVIII, considerava-se que isso era um efeito colateral de ficar muito tempo sem engravidar.

Um mês é muito tempo pra você?

Mas o que a ciência diz? Bom, se os pesquisadores não contarem para os sujeitos qual o objetivo da pesquisa, eles não acham correlação entre alteração de humor e o ciclo menstrual. Mesmo entre o estudos que encontram correlação entre TPM e humor, muitos deles colocam a TPM em datas completamente diferentes dos ciclos femininos.

Não estou de TPM, estou furiosa!

Não estamos dizendo que hormônios não mudam o comportamento — eles mudam, tanto em homens quanto em mulheres — mas há pouca evidência sugerindo que mulheres se tornam emocionalmente prejudicadas ou irracionais durante a suposta fase da TPM.

O maior problema aqui é separar a cultura da biologia. Ou, mais especificamente, como nós atribuímos efeitos culturais à biologia. Nós somos ensinados desde pequenos que a menstruação da mulher a faz agir como uma vadia. Independente de ser verdadeira, isso facilmente vira desculpa para uma mulher ficar de mau humor e para um homem descartar toda reação emocional feminina, como se fosse apenas um monte de ruídos saindo de suas partes íntimas.

2. Estereótipos dos gays mudam mais do que as roupas de um gay

Se há uma coisa que todo seriado ruim nos ensinou, é que fazer homossexuais e héteros interagirem vai trazer consequências inusitadas! O motivo disso é claro: homens gays têm muito em comum com mulheres hétero e mulheres homossexuais que não são “lesbian chic” são, é claro, machonas motoristas de caminhões Scania.

Nenhuma mulher pode sequer encostar numa ferramenta até terem suas Carteiras de Lésbicas

Claro, qualquer um que tenha conhecido (ou é) uma pessoa homossexual sabe que isso não é necessariamente verdade, mas é difícil quebrar estereótipos que existem há séculos. É por isso que você ainda ouve coisas como “eu não sou homofóbico, mas, convenhamos, aquela viadagem toda e aquela porcaria feminista são horríveis, né? Não me importo que sejam gays, desde que se comportem direito, como héteros”

Mas, em outros tempos…

Como já deu pra perceber por essa lista, “agir como hétero” nunca significou a mesma coisa por muito tempo… E, surpresa! O mesmo se aplica a “agir como gay”! Novamente, tentar separar influências culturais da biologia vira uma grande bagunça.

Por exemplo, apesar do estereótipo atual de que homens gays são afeminados, durante a Renascença, ser “masculino” era ser bissexual. Até pouco tempo atrás, nos anos 1930, mulheres consideradas “masculinas” (ou seja, mulheres que gostavam de esportes e agiam como moleques) eram vistas como mulheres hétero perigosamente promíscuas, o tipo de garota que dava atestado de vagabunda dançando em cima da mesa e brigando com a sogra.

Grande parte disso vem da ideia relativamente recente de que “gay” é uma classe distinta de indivíduo, o que não existia antes de 1860. Não entendam errado: sexo homossexual era amplamente considerado imoral antes disso, mas até então, qualquer um poderia fazê-lo. E não havia como saber quem fazia porque, bem, apesar de seus hábitos sexuais, essas pessoas eram iguaizinhas às outras.

1. “O lugar do homem” e o “lugar da mulher” são o que faz mais sentido econômico

A maioria das pessoas te dirá que, embora a emancipação feminina seja uma coisa bacana agora, a verdade é que isso vai contra milênios de evolução. Desde que a sociedade existe, homens são os caçadores e as mulheres, responsáveis pelas tarefas domésticas. As pessoas vão insistir que isso não é sexismo, é apenas a realidade. Durante toda a História, sempre houve o “mundo dos homens” e o “mundo das mulheres” e os dois jamais deverão se encontrar.

Mas, em Outros tempos…

Apesar do que você aprendeu com os Flintstones a respeito dos valores familiares dos homens das cavernas, a distinção entre “mundo dos homens” e “mundo das mulheres” é bastante nova; e por “bastante nova” entenda-se como da Revolução Industrial.

Tomar conta de uma casa não é coisa fácil hoje, mas, como mencionado no início deste artigo, era um pesadelo no século XIX. Enquanto um pai contemporâneo que sabe trocar fraldas e lavar louças é considerado “um achado” ou “progressista” (ou “whipped”, dependendo da sua perspectiva), naquela época isso era apenas… Ser pai. Garantir que um bebê viveria tempo o suficiente para trabalhar na plantação da família era uma reponsabilidade muito importante; e ao invés de discutir de quem era essa tarefa, as pessoas simplesmente faziam o que tinham que fazer.

Ok, Billy, já acabamos por aqui. Pode voltar para a lavoura.

Há muitas razões para isso ter mudado, mas elas basicamente se resumem ao surgimento do trabalho fora de casa. Trabalhar em fábricas significava ficar fora de casa o dia inteiro e os homens ficavam com a maior parte dos trabalhos industriais porque… Sabe, era o século XIX. Foi aí que o “culto à verdadeira feminilidade” apareceu e a ideia da maternidade como profissão de tempo integral se tornou popular e aceita. Conforme o mundo industrial se tornou mais brutal e competitivo, uma fronteira mais rígida entre as duas esferas se tornou a norma e, antes que as pessoas percebessem, BOOM: Mad Men aconteceu.

E aconteceu like a boss.

Quanto mais pesquisas são feitas, mais parece que o único comportamento consistentemente considerado normal é a tendência de ser muito rígido ao definir o que é comportamento normal — e ser realmente babaca com as pessoas que o contestam. Então da próxima vez que alguém for criticado por não ser “masculino” ou “feminino” o suficiente, lembre-se que, na maior parte das vezes, a única coisa que impede essas críticas de serem o completo oposto é o número que aparece no calendário.

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From → tradução

8 Comentários
  1. Amei o post! Conheço o blog há pouco tempo, mas estou adorando os textos daqui. 🙂

    Sabe que eles citaram só 5, mas tenho certeza que se procurássemos mais, acharíamos! A cutlutra está em constante evolução, as coisas mudam rapidamente, então o que é “verdade” hoje já deixa de ser amanhã.

    Beijos e parabéns pelo blog!

    • É verdade, a lista poderia ser imensa. Um estereótipo que mudou é que hoje em dia os homens tem muito desejo sexual, ao contrário da mulher – mas há alguns séculos era exatamente o oposto!
      Fico feliz por ter gostado do blog. Volte sempre! 🙂

  2. Muito bom, adorei! Já vi uns textos muito bons desse site, se eu tivesse saco traduziria também =p

  3. Isabela permalink

    Texto muito bom. Infelizmente somos todos constantemente influenciados pela maioria e pelos pais. Não consigo, apesar que querer muito mudar esses pensamentos, achar normal ver um homem heterossexual usando batom ou pintando as unhas, por exemplo. Esse é só um exemplo do machismo que está incluso dentro de mim. Não consigo me ver completamente livre do machismo tão cedo, mas tenho esperanças. Do machismo mais “malvado” eu já me vejo livre. 🙂

    • Sim, concordo que é impossível nos livrarmos de estereótipos tão enraizados. Mas essa é uma luta diária. O importante é tentar. 😉

  4. vitor permalink

    Que texto fodastico

  5. Amei o texto! Tem as fontes de pesquisa referenciando a história?
    Queria ler mais a respeito.obrigada! 🙂

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