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Tudo vale pra quê, mesmo?

outubro 18, 2012

Ontem foi considerado o “Love your body day”, uma campanha que se destina a estimular a auto-estima e o amor-próprio, principalmente entre mulheres. Aqui tem o site, em inglês, explicando melhor.

Eu quis dedicar um post sobre isso, mas acabei enrolando e não escrevi. Eis que uma propaganda da Marisa foi um bom incentivo:

Trata-se de uma moça que agradece emocionada a todos os vegetais e sopas ralas que comeu durante o ano para ficar deslumbrante dentro de um biquíni. A campanha encerra com a seguinte frase: “Tudo vale a pena para viver bem o verão”.

E eu aqui, ingênua, achando que tudo vale a pena para viver bem sempre…

Preciso dizer o estrago que uma idéia como essa pode fazer por aí? Primeiro que, vamos combinar, a moça declara que foi infeliz no período em que se matou de fome (porque viver um ano inteiro comendo alface e sopas ralas é isso: matar seu organismo de fome*) para ficar bonitona dentro de um biquíni. Porque é esse o objetivo maior na vida de uma mulher, certo? Ser linda sempre dentro de um padrão cada vez mais impossível. Não importa que você sofra com refeições tristes, com ansiedade e sei lá mais o quê. Como dizem por aí: no pain, no gain, certo?

Ninguém acha estranho viver num mundo em que uma mulher tem que estar disposta a fazer qualquer coisa pela beleza, inclusive sofrer? Porque não basta ser magra e ficar lindíssima dentro de um biquíni: você não pode ter celulite, estrias, não pode ter um grama de gordura corporal e seus músculos têm que ser duros como pedras. Os seios e a bunda têm que ter determinado formato e tamanho. E, é claro, você não pode ter um pelo corporal sequer. A lista de exigências para ser linda e ter autorização pra ser feliz é grande – e cara. Vamos combinar que isso tudo não se trata de beleza, mas de uma quantidade imensa de dinheiro. As indústrias de estética movimentam bilhões de dólares no mundo inteiro, assim como sua amiga mais íntima, a publicidade. As duas andam sempre de mãos dadas, criando necessidades que ninguém sabia que tinha e cobrando bem caro por isso.

Seu corpo é só seu. Suspeite de quem tenta controlá-lo.

Não custa dizer que precisamos deixar a ingenuidade de lado. A sociedade não é obcecada por beleza ou saúde, mas por controle. Enfiar na cabeça das mulheres que nosso valor está no formato do nosso corpo vem se mostrando uma maneira muito eficaz de desviar nossa atenção e controlar tudo o que fazemos. Dificilmente alguém que passa todo o seu tempo observando e controlando o tamanho da sua barriga vai olhar ao redor e enxergar além do próprio umbigo. E é por isso que engolimos tanta coisa absurda. Porque estamos ocupadas demais odiando nossos corpos.

Uma propaganda como essa só corrobora a idéia de que mulher gorda não pode ser feliz e aproveitar o verão como qualquer outra. Dói muito que tanta gente acredite nessa idéia ridícula que é tão disseminada pela publicidade – seja de maneira sutil ou escancarada, como nesse vídeo da marca de roupas. Outro dia, um site de fofocas colocou uma lista de fotos das celebridades (todas mulheres, é claro) cujos corpos não estão preparados para o verão. O engraçado é que eram algumas das mulheres consideradas as mais lindas e gostosas do país. O recado é claro: se elas, que são atrizes bem-pagas, têm tempo e dinheiro para cuidar do próprio corpo, estão pagando mico na praia (título da reportagem), imagina você, mera mortal! Morra de vergonha dos seus defeitos e corra para a clínica de estética mais próxima.

Não dá pra ignorar que o mundo é cada vez mais obcecado pela estética feminina. Isso se reflete de maneira cruel nos índices cada vez maiores de transtornos alimentares e cirurgias plásticas praticamente no mundo inteiro. Ou seja, essa obsessão vem nos deixando doentes, igualmente obcecadas, cheias de angústia e dores (emocionais e físicas). E a publicidade tem um papel fundamental em construir e sustentar a obsessão da sociedade. Afinal, quem compraria essas idéias tão absurdas se não houvesse alguém para vendê-las? Há algo de muito doentio numa sociedade que coloca o lucro como seu principal objetivo, mesmo que, para alcançá-lo, seja necessário vender idéias cruéis na forma de propaganda para roupas.

O problema não é alguém querer fazer dieta para emagrecer. O problema é alguém deixar de fazer o que gosta enquanto não chega ao peso desejado. O problema é acreditar que ser feliz é vestir um determinado manequim – e nada mais.

Resumindo, é isso aí.

Outro post sobre o assunto aqui: Ativismo de Sofá

A Letícia escreveu um pouco sobre isso também.

*É lógico que não dá pra levar uma propaganda tão a sério, mas a anorexia nervosa (um transtorno em que a pessoa tem tanto medo de engordar que vai se matando por inanição aos poucos) costuma ser mais ou menos assim. A paciente pode chegar a um ponto extremo de não comer nada, mas também pode restringir-se a pouquíssimos alimentos, como alguns vegetais, sopas ralas… Bem parecido com o que faz a moça da propaganda.

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