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Quando a miséria tem a cor errada

outubro 17, 2012

Quem entrou na internet nos últimos dias deve ter ouvido falar do mendigo de Curitiba. Para quem ainda não conhece, ei-lo:

A história se trata, aparentemente, do que a alcunha do rapaz já revela: um morador de rua da capital paranaense teve uma foto publicada no Facebook e causou um alvoroço na internet por sua beleza. Deste seu aparecimento, já ganhou nome, uma história, familiares e até diagnósticos – privilégio de poucos que costumam estar em seu lugar. Aliás, outro privilégio que ganhou foi compaixão: afinal, como um rapaz tão bonito pode ter parado numa situação tão triste quanto morar na rua? Muita gente torce para que a exposição na internet traga bons frutos, como um trabalho como modelo, tratamento para seus diagnósticos (já falaram que é dependente de crack e teria esquizofrenia).

Essa situação toda me fez lembrar do início deste mês de outubro, quando eu caminhava pelo Centro do Rio, perto da rua Primeiro de Março.

Ao lado do Paço Imperial. Uma parte do Rio que guarda a História do Brasil

Para quem não conhece, essa é uma parte histórica da cidade que eu acho linda, mas que é muito degradada e mal-cuidada. É também um lugar com muita gente miserável, faminta, vivendo na rua, em condições desumanas. Por isso que quase ninguém anda muito tranquilo por lá, especialmente o cidadão de bem, que entende todo miserável como uma ave de rapina pronta a levar tudo que lhe pertence.

Andando por lá, distraída como sempre, reparo numa pequena confusão. No meio dela, três crianças maltrapilhas, magras e assustadas. O mais velho não devia ter mais de 12 anos. As pessoas ao redor a acusavam de ter tentado assaltar alguém, coisa do tipo – confesso que não ouvi bem, mas não vi nenhuma delas fazer nada contra ninguém. De qualquer forma, acabei me afastando e seguindo meu caminho. Mas é claro que um cidadão de bem indignado que também andava por lá não ia deixar a situação por isso mesmo tão fácil. Claro que não. Ele resmungava contra as crianças a plenos pulmões, para todo mundo ouvir.

“Mas é um absurdo isso, eles roubando a gente no meio do dia e ninguém faz nada. Que futuro eles vão ter? Tem que matar esses pivetes! Se eu tivesse uma arma, mandava uma bala só, no meio da testa. Mas ninguém pode encostar neles! Aí não pode!”

“Aí vem logo o pessoal dos direitos humanos defender…”, comentou outra cidadã de bem, com desprezo. Porque é isso que o pessoal dos direitos humanos faz: defender bandidos.

Eu nem consegui esboçar uma reação. Olhei para a cara dos indivíduos com o mais profundo nojo e apertei o passo para não ouvir a coleção de merda que saía do acervo dos cidadãos de bem.

Ninguém comentou que tristeza era ver três crianças tão bonitas na rua. Aliás, ninguém nem olhou na cara delas para saber se eram bonitas ou feias. Ninguém mostrou indignação por vê-las sozinhas nas ruas do Centro do Rio às 11h da manhã de uma sexta-feira. Talvez porque, para aquelas pessoas, ao contrário do moço de Curitiba, o lugar delas deve ser ali mesmo. Mas qual será a diferença entre essas crianças e o tal moço?

Uma dica: as crianças de que falei não tinham olhos azuis.

Por que será?

É essa a questão que se discute há muito tempo e veio à tona com essa foto do mendigo de Curitiba. A miséria no Brasil tem cor. E nós estamos tão acostumados a isso, como se as coisas fossem assim mesmo e pronto, que a existência desse moço branquinho de olhos azuis vivendo na rua nos causa desconforto. Enxergamos um ser humano, enxergamos seu rosto, sua beleza, enxergamos o sofrimento de uma vida miserável, enxergamos a degradação da vida humana. Enxergamos isso tudo porque não nos parece natural que ele esteja lá. Aquele não é o lugar dele. Porém, quando passamos por outras pessoas no mesmo estado que ele – e que, na sua esmagadora maioria, são negras – não enxergamos nada. Viramos a cara, como se ali não estivesse mais do que um pedaço da calçada. Afinal, o que é natural não chama a atenção de ninguém.

E é isso que me parece a parte mais cruel da história. Talvez esse moço ganhe alguma fama-relâmpago, se beneficie um pouco dela antes de voltar para o anonimato. Mas ninguém vai falar sobre a miséria que ronda os grandes centros urbanos. Vamos continuar a virar a cara e fingir que os miseráveis não existem – até o momento em que eles nos assaltam, é claro, que é quando eles merecem ser executados e voltam a não existir.

Outro texto sobre o mesmo assunto: A sorte do mendigo branco num país que vira a cara para os mendigos negros.

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From → preconceitos

2 Comentários
  1. tem muitos mendigos parecidos com esse por aqui. e ninguém para pra olhar pra eles.

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