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Culto do Slut-Shaming divino

setembro 13, 2012

Existe uma nova modalidade de culto evangélico que vem ganhando bastante espaço na mídia já há algum tempo: O culto das princesas. Aqui tem uma reportagem, uma das primeiras que li a respeito, explicando melhor do que se trata.

No vídeo que acompanha a reportagem, Sarah Sheeva, pastora responsável pelo culto, diz algo mais ou menos assim:

“nosso objetivo é transformar uma mulher que aceita qualquer porcaria, uma mulher fácil, em uma mulher nobre, que se valoriza, que impõe limites”.

Primeiro eu gostaria de dar destaque à ~batalha~ que as princesas travam com as cachorras. Essa dicotomia babaca, que não passa daquela oposição entre santas e putas com uma roupagem moderninha, surge de um comentário feito para desqualificar os tempos modernos, que é mais ou menos assim: antes, os homens nos elogiavam chamando-nos de princesas, hoje nos chamam de cachorras [do funk, é claro. Porque além de machista, a pessoa tem que ser elitista]. Mas nós sabemos, e eu vou falar melhor depois, que nada disso aí é novo. Eu queria falar mesmo é da obsessão dessas mulheres com o conceito de  “princesas”. Vocês me perdoem, mas o termo não é fofo. É imbecil. Dá a impressão de que vocês não saíram daquela fase da infância em que idolatrávamos as princesas da Disney e queríamos ser como elas e viver como elas num mundo coloridinho cheio de números musicais e achar um príncipe e viver feliz para sempre. Não chegaram àquela fase da vida em que todo mundo aprende que isso não existe.

E, se existisse, seria uma cilada.

Ela usa uma linguagem cristã metida a moderninha para falar o que já se repete há séculos: existem mulheres pra casar e para ficar. Nossos bisavós já falavam isso, Sarah Sheeva. Nossos bisavós já falavam horrores das tais mulheres fáceis, que mulher tem que se dar valor (que é medido unicamente pela vida sexual dela) etc. etc. etc. Muda o disco.

O feminismo luta contra rótulos pejorativos baseados na maneira como a mulher decide viver sua sexualidade. Esses rótulos são nocivos porque não condenam apenas a nossa sexualidade, mas também o nosso caráter. Dá pra notar isso quando a pastora fala que uma mulher fácil aceita qualquer porcaria na vida amorosa, não impõe limites, não se valoriza. Toda a vida da mulher, todo o seu caráter, é reduzido ao que ela faz ou deixa de fazer com o corpo. Como se fosse possível definir alguém de uma maneira tão superficial.

Vamos deixar bem claro que ser solteira, ter vários parceitos sexuais, ser sexualmente liberada, usar determinados tipos de roupa não é feminismo. Não é nada além de uma série de escolhas pessoais. Ser feminista não é condenar as mulheres que escolhem se casar jovens, virgens, se vestem de maneira recatada, são monogâmicas. Pelo contrário, ser feminista é defender o direito de escolher fazer isso tudo. Nossa maior bandeira é a defesa do direito a fazer nossas próprias escolhas sem a obrigação (escancarada ou velada) de seguir determinados padrões de gênero rígidos e imbecis. Ninguém ganha com existência desses padrões rígidos, nenhuma mulher e nenhum homem.

O que incomoda nessa história toda não é que Sarah Sheeva pregue um estilo de vida mais conservador. O problema é que ela pregue um estilo de vida machista (dá para ser um ser o outro? Sério. Não sei). Eu entendo que dizer “Deus quer que você leve uma vida tradicional” é diferente de dizer “Deus quer que você seja princesa, não cachorra”. A segunda frase carrega um juízo de valor que é muito, mas muito machista. E é bem mais marketeiro também, convenhamos. Daí o problema: machismo é um troço que vende muito.

Em outra reportagem, há um vídeo de quase meia hora em que a pastora dá conselhos amorosos a uma moça que escreveu pedindo ajuda. Eu confesso que só consegui assistir pouco mais de 15 minutos. Vou nem entrar em muitos detalhes porque é uma enxurrada de bobagem na maior parte do tempo. Embora eu deva ressaltar que Sarah Sheeva fala uma coisa interessante com a qual eu concordo muito, algo parecido com “amor de verdade não machuca”. Um cara que te ama não te faz sofrer. Acho muito positivo que ela reforce isso, pois acaba com qualquer possibilidade de justificar um relacionamento abusivo. Quem ama não é violent@, não é abusiv@, nada justifica esse tipo de coisa.

Porém, essa mensagem que poderia ser legal acaba sendo estragada por esse trecho, que está no texto da reportagem:

Venha aprender a deixar de ser cachorra, se tornar uma Princesa, e receber o amor que você merece!“, afirma Sarah Sheeva, que minstra a palestra vestida com look inspirado nas princesas, em sua página no Facebook.

Então as tais mulheres cachorras não merecem receber amor de verdade? Elas merecem relacionamentos abusivos? Isso eu não admito. E não tem argumento religioso que me convença de um troço desses. Ninguém MERECE um relacionamento abusivo, Sarah Sheeva. Existem inúmeros motivos para que uma pessoa acabe se submetendo a esse tipo de violência (seja física ou psicológica), mas isso não as torna merecedoras de sofrimentos. Eu jamais vou achar que uma mulher machista merece apanhar do marido, por exemplo, e que a culpa é dela por atrair esse tipo de gente. A culpa nunca é da vítima, Sarah Sheeva, mesmo que ela seja do mundo, mesmo que seja o que vocês chamam de cachorra. Que tal parar de culpar as vítimas e ter um pouco mais de empatia? Já tem muita gente destruindo a auto-estima das mulheres que passam por relacionamentos abusivos. Isso não condiz com a atitude de nobreza que as ditas princesas defendem.

No final das contas, boa parte do que Sarah Sheeva e as ~princesas~ desse culto falam não passa de Slut Shaming. Não se trata de construir uma auto-estima sólida para as moças dessas igrejas, o que seria absolutamente louvável, mas de consolidar uma série de preconceitos e fomentar o desprezo que a sociedade se esforça para construir sobre as mulheres que não são pra casar. Por que alguém em sã consciência acharia uma boa idéia aumentar o ódio e o desprezo entre seres humanos? Como se já não houvesse ódio o suficiente no mundo.

Sei lá, eu achava que esse negócio de Cristianismo tinha a ver com amar ao próximo e tal, tenho a impressão de que é difícil amar alguém que você despreza tanto.

amor: acho que vcs entenderam errado

Lendo essa primeira reportagem que linkei sobre isso, achei um trecho que é preocupante:

Na parte final do culto, dedicada a perguntas, Sarah dá conselhos a uma senhora que quer saber se tem direito de recusar o marido sexualmente.

“Vai na farmácia, compra um lubrificante e dá glória a Deus por ter um peru só para você em casa. Tem que dar valor”, responde Sarah. Risos e amém, em uníssono.

Mesmo que essa resposta tenha sido em tom de piada, ela é extremamente cruel. É cruel que uma mulher questione se tem direito ao próprio corpo e ainda pior que outra mulher, em posição de autoridade, diga que não. Que ela tem de aproveitar a dádiva que é ter um homem só dela. Sexo é uma delícia, mas não é prêmio que se dá a um macho dedicado. Não é direito adquirido após casamento. Sexo tem que ser algo consentido entre todos os envolvidos SEMPRE, caso contrário, deixa de ser sexo e vira estupro. Todo mundo tem direito de negar sexo e todo mundo tem a obrigação de aceitar a decisão d@ outr@. O fato de a pastora reforçar qualquer coisa contrária a isso é aviltante e absolutamente nojento. Cruel é constatar que ela fala isso protegida pelo escudo da religião.

Liberdade de culto é um direito constitucional, mas não deve servir de escudo para alguém ferir aquele outro direito constitucional que garante o direito à dignidade humana. E, ao contrário do que diz o ditado, religião se discute. A Sarah Sheeva deveria ser responsabilizada pelo que diz, principalmente no que se refere ao caso que mencionei acima. Ser pastora não lhe dá o direito inalienável de dizer, nas entrelinhas, que um homem tem direito de estuprar a esposa caso ela não dê valor ao pau que tem em casa. Vamos deixar os eufemismos de lado: fazer sexo com o seu marido contra a sua vontade é estupro.

Ver preconceitos arcaicos ganhando ares moderninhos é assustador, porque isso é muito eficaz para conquistar novos adeptos. O resultado é essa quantidade de gente jovem que repete os mesmos preconceitos que seus avós falavam. E a Sarah Sheeva não passa de uma machista com uma coroazinha na cabeça.

Por que seus direitos religiosos sempre se sobrepõem aos meus direitos como mulher?

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4 Comentários
  1. Karla, eu me senti a mais panaca das panaquenses ao ler o que você escreveu. Porque eu tomei uns goró de coragem há uns meses e vi esses vídeos. Depois vi a Sarah na Marília Gabriela, e por mais que eu tenha ficado incomodadaça com as merdas que ela vomita, ainda assim achei as críticas com um tom de perseguição religiosa… Até ler a sua. Dá até vergonha de não ter percebido antes.

    Porque uma coisa é ela pregar papéis de gênero escrotos de acordo com a péssima leitura que ela tem daquele livro. Outra é ela dizer que tá tudo bem o maridão te furunfar, mesmo que você não queira. Que ódio que me deu, viu? )=

    Agora vou ali spammear seu texto. Obrigada. 😀

    • A minha grande preocupação escrevendo esse post foi criticá-la sem cair na crítica à religião em si. Pelo seu comentário, parece que consegui! Fico feliz. Eu que agradeço.
      Beijo

  2. eu queria dizer que estou indignada com a sara sheeva, mas seria mentira. eu to impressionada com o seu poder se argumentação. dá isso pro papa ler que ele larga a batina! 😀

    na boa, acho chato quando o “valorize-se” se dá na base da desvalorização do outro. você só merece ser respeitada porque seu comportamento é diferente daquela outra (a “cachorra”) que não soube “se comportar”. todas as pessoas são dignas de respeito – e até de amor próprio. independentemente de como é sua vida sexual. independentemente de qualquer coisa, pra falar a verdade.

    agora me dá licença aí que eu vou comprar lubrificante e dar graças a deus por ter um peru só pra mim. beijo!

    • É exatamente esse meu problema com esse tal culto das princesas: ele valida que algumas mulheres simplesmente não merecem respeito. Isso é muito cruel.
      “eu to impressionada com o seu poder se argumentação.” ai que fofa ❤

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