Skip to content

O jornalismo machista invade a política. De novo.

setembro 10, 2012

Eu amo política. Amo discutir, participar e me empolgo em época de eleições. Faço campanha, converso com todo mundo (que deseja ouvir, é claro), às vezes assisto horário eleitoral, busco conhecer candidat@s e partidos. O que acaba com minha empolgação é ver a enxurrada de sexismo que é despejada nessa época.

Infelizmente, está na moda certo tipo de “notícias” apelidado de jornalismo punheteiro. O nome já se explica por si só. No último ano, esse tipo de abordagem por parte da imprensa ficou bem explícito (e patético) na quantidade de musas que surgiram por aí. De Musa das Olimpíadas a Musa da CPI, nenhuma mulher ficou imune aos cliques e aos apelidos indiscretos da imprensa. Nenhuma pessoa de bom senso ficou imune ao profundo constrangimento causado pelo sexismo descarado dos jornalões e portais de notícias.

Vamos deixar bem claro que não se trata de proibir a admiração dos belos corpos que estão por aí no mundo. Não é isso que está sendo “condenado”. Tem gente que acha moralismo, paranoia de feministas, mas será muito difícil perceber o abismo de diferença na maneira como a mídia retrata homens e mulheres?

vamos rever o que vocês chamam de “paranóia”

(Imagem via feminista cansada)

É um sinal grotesco dos tempos que exista essa fixação pelas tais musas quando se trata de assuntos sérios, sem nenhuma relação com estética. O recado não poderia ser mais cruel: não importa o motivo pelo qual uma mulher ganha destaque, é bom ficar claro que o papel delas é de enfeitar. Essas mulheres enfeitam Olimpíadas, CPI e até as eleições.

Daí, no alto da minha empolgação eleitoral, encontro a seguinte enquete:

Olha só, tem até *uma* negra

Além, é claro, de algumas outras reportagens sobre as gatinhas que enfeitam as eleições municipais de 2012.

A política brasileira me entristece muito pelo papel reduzido que as mulheres desempenham. Existe uma lei que obriga os partidos a ter no mínimo 30% de mulheres entre seus candidatos a cargos legislativos. Muitos não conseguem alcançar esta cota. Se pararmos para analisar a quantidade de mulheres que ocupam cargos legislativos, a coisa piora: estamos atrás até do Afeganistão.

Como ser um país democrático, só que ao contrário

Será que mulheres e política não se misturam, sei lá, por alguma anomalia genética? Ou será que existe uma tradição gigantesca de tentar afastar do poder quem já se encontra excluíd@? A julgar pelo tratamento que as candidatas ganham no espaço público, a segunda opção me parece mais lógica. Basta pensar nas eleições de 2010, quando a aparência da então candidata Dilma Rousseff ganhava um espaço absurdo na mídia. Ou lembrar o massacre da opinião pública misógina contra Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2008 nos EUA. Ou de um episódio recente envolvendo uma ministra francesa, que cometeu o erro de entrar no parlamento usando um vestido. Em todos estes casos, a mensagem é a mesma: mulheres, estes lugares não pertencem a vocês.

No sistema democrático em que vivemos, só tem voz quem é representad@. E só é representad@ quem participa da política. Só existem desigualdades (sociais, econômicas, de gênero) porque existem excluíd@s. Política é poder e, como eu já disse antes, quem está no topo não vai largar o osso tão fácil. E a intenção bem clara de quem está no topo é manter o poder na mão de quem já tem. A julgar pela quantidade de mulheres na política e pelo sucesso do jornalismo punheteiro, estão conseguindo.

A grande crítica que eu faço à mídia como feminista é que ela impõe um único papel para nós através das representações torpes que faz. A sociedade impõe, através de uma força tão grande quanto os veículos de comunicação, que o único papel das mulheres é o de enfeite. Não custa lembrar que enfeites não têm voz, não têm participação política e não têm poder. É por isso que @s feminist@s ficam tão incomodad@s com propagandas e programas de TV machistas. Porque nós sabemos o quanto esse tipo de coisa tem a força para moldar a imagem e o papel que as mulheres, dentre outras minorias, devem ter. E não é coincidência que tratamos certos grupos como minorias: não falamos de minorias numéricas, mas de minorias sociais. Ou seja, que têm pouca representação política e menos direitos, mas têm as representações mais distorcidas na mídia.

Em relação à mídia, os papéis que ela ajuda a propagar se tornam cada vez mais consolidados e escancarados. Isso acaba se espelhando na política. E é impossível chamar de democracia um sistema que exclui e silencia a voz de tanta gente (sobre isso, existe um ótimo documentário chamado Miss Representation).

É claro que não aceitamos isso e que nós vamos fazer cada vez mais barulho. Há 80 anos, conquistamos o direito ao voto.E vamos brigar cada vez mais pelo poder, pelo direito de ter voz. Apesar de vocês, conservadores, eu sigo empolgada e participando.

Anúncios

From → feminismo, política

4 Comentários
  1. muito bem resumido, muito bem escrito. parabens! (:
    adorei o termo ‘jornalismo punheteiro’. achei adequado para a primeira foto.

  2. mariana permalink

    “Vamos deixar bem claro que não se trata de proibir a admiração dos belos corpos que estão por aí no mundo. Não é isso que está sendo “condenado”.”

    Mas aí é que está todo o problema…não sie porque este medo de denunciar araiz do mito da beleza que tanto nos tiraniza.

    • Não se admirar a beleza das pessoas é um problema. Eu admiro a beleza dos rapazes que me interessam e das mulheres tbm, sem interesse sexual. Aliás, passei a admirar muito mais a beleza das mulheres depois que me tornei feminista.

      Pra mim, o problema é ter padrões inflexíveis de beleza e viver escravizada por eles.

      • Julia permalink

        O problema não é admirar a beleza o problema é admirar a beleza acima de qualquer outra qualidade da mulher. Porque um homem na política é um homem na política e uma mulher na política é uma mulher bonita/feia na política. Como disse a autora, a mensagem é clara: você, mulher, pode até chegar ali, mas todos nós sabemos que o que importa de verdade é o seu corpo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: