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Não adianta espernear

setembro 8, 2012

Ontem, dia 07/09, houve uma briga gigantesca no Twitter. O pontapé inicial da coisa toda foi a seguinte piada:

“Mulher: se o cara bota camisinha sem você pedir, é porque ele te acha uma vadia”

Engraçadíssimo, só que não.

O grande problema desses piadistões da internet é que eles não sabem reagir às críticas. Porque, no mundo real, se você falar besteira, haverá reações. Não sei quem falou que na internet seria diferente, mas, adivinhem: não é. Ao contrário, as reações são bem maiores. Muita gente foi apontar o absurdo que o piadistão falou e ele respondeu, é claro, fazendo mais piadas imbecis e machistas. Ou seja, nada de novo no reino dos piadistões.

Será que é preciso explicar como é absurdo alguém falar, em pleno ano de 2012, que só se usa camisinha transando com vadia? As DSTs, inclusive a Aids, deixaram de ser exclusividade de certos “grupos de risco” há pelo menos 15 anos. Acredito que a grande incidência de HIV entre mulheres casadas e monogâmicas seja um bom indicador de como todo mundo tem responsabilidade em não reforçar certas bobagens que só prejudicam as pessoas. Principalmente quando se tem uma audiência de sei lá quantos milhares de leitores e seguidores.

Muita mulher ainda tem vergonha de comprar camisinha, andar com ela na bolsa. Acho que não preciso explicar a ligação clara entre dizer que só se usa camisinha com vadia e isso, certo? Também não preciso explicar a relação entre essas duas coisas e a incidência gigantesca de DSTs entre jovens, certo? Ok então.

Chama atenção a análise da razão de sexos em jovens de 13 a 19 anos. Essa é a única faixa etária em que o número de casos de aids é maior entre as mulheres. (…) Em relação aos jovens, os dados apontam que, embora eles tenham elevado conhecimento sobre prevenção da aids e outras doenças sexualmente transmissíveis, há tendência de crescimento do HIV.

O engraçado é que quando esse tipo de coisa acontece, você pode apostar que são sempre as mesmas pessoas envolvidas. Eu tenho twitter há pouco tempo, mas já tinha percebido isso. O que sempre acontece também é que alguns dos milhares de seguidores desses piadistões surgem para defender os ídolos. Aí a coisa vai ladeira abaixo. Entre a manada de defensores do sujeito em questão, apareceram frases tão bizarras e maldosas como “a pessoa tem que ser muito relaxada para ter 10 amigos aidéticos”. Sabe? Essa frase tá tão errada que eu nem sei por onde começo. E teve coisa pior, tipo racismo. Esse tipo de comentário já passou de ignorância e virou maldade mesmo. Difícil acreditar que uma pessoa consegue ser tão desumana sem querer.

Daí reclamaram que estavam exagerando, que querem patrulhar o humor, etc. As reações de sempre. Pra mim, a regra é clara: se você não quer que ninguém reclame das merdas que você fala, não fale merda. Se você não quer que te denunciem por fazer declarações racistas (que é crime, caso não saibam), não faça declarações racistas. É assim que o mundo funciona.

O que eu acho mais curioso nessa história de “maldita patrulha” é que quem reclama disso não percebe que também faz patrulha. Basta uma reclamação e aparece uma horda de defensores do inalienável direito de ser babaca, quase sempre bastante agressiva e sempre falando merda. Vai dizer que vocês não acham isso um tipo de patrulha? Os reles mortais acabam pensando 30 vezes antes de falar alguma coisa para os piadistões porque sabe o que vai acontecer. Sabe o que vai ter de aturar. Não se enganem, isso se trata da boa e velha intimidação mesmo. Porque é aquilo: liberdade de expressão só é legal quando EU falo o que eu quero. Se apontar que eu estou errado, é censura.

É bom lembrar que os tempos são outros. Há algum tempo, era aceitável fazer comentários racistas, homofóbicos, misóginos. Hoje, felizmente, já não é assim. Ninguém pode se achar acima de tudo e todos na hora de destilar preconceitos. Não adianta espernear.

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3 Comentários
  1. Seu texto não merece sequer uma ressalva. Meus parabéns.

  2. tenho percebido um numero inesperadamente alto de mulheres jovens não usa camisinha nem com parceiros esporádicos. a maioria diz que acha desnecessário, como se o único risco fosse engravidar. nisso eu faço uma de chata/mãe e dou um sermão, porque acho muito importante que as pessoas abram os olhos e vejam que a aids não terminou nos anos 80. e que não é coisa de gay. nem, é claro, de vadia.

    • E HIV nem é o único problema, né. Tem Hepatite, HPV. E ninguém tá imune a isso por ser/transar com as ditas vadias. É triste, viu.

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