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Ser imune à cultura do estupro é um privilégio

setembro 5, 2012

Recebi nos comentários de um post uma dúvida que eu achei bem pertinente e construtiva. Mais ou menos assim:

“Eu sei que a sociedade é machista, mas eu nunca fui criado para dominar as mulheres e jamais conheci alguém que pensasse isso. Por isso, esses artigos sobre cultura do estupro me parecem sensacionalistas. Mas talvez eu tenha sorte”.

Sim, você é uma pessoa de sorte. Viver imune a essa cultura de violência é uma sorte que as mulheres não têm. E o fato de isso parecer tão longe da realidade de um homem é mais uma prova de como essa cultura de violência está entranhada na sociedade: estupro nunca é um assunto distante da realidade das mulheres.

Cultura de estupro é exatamente isso, uma cultura de medo. E toda mulher tem medo de ser estuprada. Desde pequenas, aprendemos que devemos evitar certos lugares e situações que possam nos colocar em perigo. Só para te dar um exemplo, quando eu tinha uns dez anos minha mãe sempre me alertava a não passear com meu cachorro por uma rua que era pouco movimentada exatamente porque eu correria o risco de ser agarrada. E é claro que ela não falava isso por mal, ela só queria me proteger. O problema é que a sociedade ensina que as mulheres devem se proteger, como se o risco de estuprada fosse algo inerente a nossa existência. E, se o estupro vier a acontecer, a culpa é sua por não ter se protegido, por estar num lugar perigoso, por ter usado saia curta, por ter se insinuado para o agressor. Isso é cultura de estupro.

Cultura de estupro é algo tão forte que não leva apenas ao medo de ser estuprada, mas também ao medo de denunciar. Como eu falei, aprendemos a vida inteira que estupro é um risco inerente ao fato de ser mulher e que a responsabilidade por evitar uma violência é nossa. Se o estupro acontecer, a responsabilidade cai sobre a vítima, que não se cuidou o bastante ou que provocou a violência. Aí vem o medo de denunciar, seja porque em boa parte dos casos, o criminoso sai impune, seja porque a sociedade é ávida em duvidar das vítimas e condená-las moralmente. Impunidade é um dos grandes fatores que contribuem para que essa cultura de violência exista.

Além da impunidade, a naturalização da violência também alimenta a cultura do estupro. Exemplo disso é a existência de frases como “cu de bêbado não tem dono”. Mais uma das diversas piadinhas que validam a cultura do estupro. Afinal, se você bebe, assume o risco de ficar vulnerável a quem queira se aproveitar disso. Afinal, como eu disse, estupro é tratado como parte da existência de uma mulher. Ninguém fala que beber não é crime, mas estuprar é. Fazer sexo com alguém que está tão bêbad@ a ponto de não conseguir dizer sim ou não é estupro.

A cultura do estupro também dá as caras em comentários que parecem inofensivos e são repetidos à exaustão, como o clássico “mulher faz charminho e diz não quando quer dizer sim”. Nós ouvimos isso a vida inteira, ao invés de ouvir que não é não. É por isso que alguns homens nem acham que realmente cometeram um estupro, pois eles aprendem que não precisam respeitar a vontade de uma mulher lhe diz não, porque isso não é sério.

Um outro mito que ajuda a perpetuar a cultura do estupro é o tal de “mulher tem que se dar o respeito”, “tem que se respeitar para se respeitada”. Primeiro, que a expressão “mulher de respeito” é um moralismo gigantesco ligado estritamente a nossa vida sexual. Então, quando se diz que nem todas as mulheres merecem respeito dá a entender que algumas são mais violentáveis que outras. Que, de alguma forma, quem causa a violência que ela sofre é ela própria, que ouve músicas com letras sexualizadas, usa roupas curtas, é sexualmente liberada. Quando, na verdade, a única causa para o estupro é o estuprador.

Outro mérito da cultura do estupro é que somente um sociopata é capaz de fazer ou defender algo tão hediondo. Não é bem por aí. Todos os prints que ilustram esse post foram tirados de discussões sobre o caso da banda New Hit. E, acredite, há muitos outros exemplos de gente condenando as vítimas e defendendo os criminosos (neste caso e em vários outros), mas que nunca receberia um diagnóstico de transtorno da personalidade anti-social. Não é um diagnóstico que leva alguém a defender essas coisas absurdas, mas uma sociedade que naturaliza o estupro.

mascus, aprendam: a culpa NUNCA é da vítima

Alguns homens odeiam esse assunto e sentem repúdio quando se fala disso, pois, para eles, parece que todos os homens são potenciais estupradores. É claro que não são. Mas as mulheres são criadas para temer todos os homens, pois não se sabe quando poderemos ser atacadas. Só que vocês estão questionando o lado errado da discussão.

De verdade, acho legal que exista esse tipo de questionamento. Eu recomendo que quem duvida da existência de uma cultura que valida e incentiva o estupro tire um tempinho para conversar com uma mulher sobre o assunto. Pergunte se ela tem medo de voltar da escola, do trabalho ou da faculdade sozinha à noite. Pergunte se ela já foi “encoxada” no transporte público como se fosse a coisa mais natural do mundo. Questione também os seus amigos, se eles acham que isso tudo é normal. Questionar e debater são os primeiros passos em direção a mudanças. Tornar o estupro um assunto de homens já é um grande passo.

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From → feminismo

4 Comentários
  1. meu depoimento: faz tempo que nao ando (a pé ou de bicicleta) em uma rua deserta, ou com arvores que tapem a vista. nao quero estar vulnerável, longe da vista de possíveis testemunhas. ja faço isso automaticamente, sabe?

    by the way, saudades de tu 😦

    • sei como é. já ando na rua olhando pra trás automaticamente tbm. triste.
      saudades demais ❤ ❤

    • megera lisonjeada permalink

      Rua deserta? E se eu testemunhar que em Salvador é ilegal ser mulher mesmo numa praça pública iluminada lotada e policiada? Dê uma chegada ali no Porto da Barra, na pracinha da feira de artesanato em qualquer sexta à noite, ao lado de um módulo policial,e você verá várias mulheres, entre feirantes e turistas, sendo insultadas e ameçadas por uma turma de homens locais simplesmente por não quererem conversar ou dançar com eles. Entre os retaliadores do crime de livre arbíruio feminino há, inclusive, o filho de um tradicional político, jurista e professor local. Se no resto do país mulher não pode decidir com quem faz sexo, na Bahia elas não podem decidir nem com quem conversar.

  2. Muito legal o texto! Nem tenho mais paciência pra explicar assim pras pessoas, tin-tin por tin-tin…
    Simples e cheio de informações!

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