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Ateus que me matam de vergonha

setembro 2, 2012

Sendo feminista, minha opinião sobre a maioria das religiões não costuma ser positiva. Como atéia e defensora ferrenha do Estado laico, minha opinião sobre elas também não costuma ser positiva. Mas, no momento, minha opinião sobre a maioria dos ateus e agnósticos também não é positiva. Como atéia, feminista, defensora do Estado laico e de uma sociedade mais justa, não fecho os olhos para os absurdos que são ditos por quem se acha muito racional.

Eu sou atéia mais ou menos desde os 14 anos. Religiões nunca foram algo muito presente na minha vida, mesmo quando eu dizia que era católica e até acreditava que o deus cristão existia. Foi durante a adolescência que eu comecei a questionar isso. Na época, para quem não lembra, existiam grandes fóruns de discussões sobre vários assuntos no Orkut, inclusive sobre religiões e ateísmo. Comecei a participar deles mais ou menos em 2004, aos 14 anos, e foi a partir daí que comecei a formar alguns conceitos sobre deuses e religiões em geral na minha cabecinha. Acho que parei de frequentá-los entre 2007 ou 2008 por vários motivos, mas o que me afastou mesmo desses “clubinhos” de ateus foi o quanto eles me envergonhavam.

vocês se constrangem, me constrangem

Sim, me envergonhavam mesmo. Não falo de uma praga que costumava invadir essas comunidades do Orkut, aqueles que se declaravam ateus porque achavam isso um ato de rebeldia, que escreviam posts ininteligíveis e imbecis. Falo de pessoas que são inteligentes e articuladas, mas que não usam a capacidade crítica que possuem para pensarem um pouco além de seus umbigos, para pensarem um pouco mais na sociedade. Aquelas que acreditam que todo o mal da humanidade se concentra em religiões. Dessas, eu juro que sinto uma profunda vergonha.

Não dá pra negar que, ao longo da História humana, as grandes religiões institucionalizadas estiveram envolvidas em atitudes no mínimo condenáveis. Exemplos não faltam: justificando a escravidão, mandando mulheres para a fogueira, condenando métodos contraceptivos, legitimando a homofobia, apedrejando mulheres, formando uma bancada retrógrada no congresso brasileiro. Mas será muito difícil perceber que a maioria destas atitudes condenáveis estão ligadas a preconceitos que ainda existem e são muito fortes? A maior crítica que faço à maioria das religiões é exatamente o quanto elas são úteis para reforçar preconceitos e tornar o mundo esse lugar tão desumano. E esses ateus que me envergonham se acham muito superiores por terem se livrado das religiões, mas não de diversos preconceitos. Pra mim, não é motivo algum de orgulho que alguém se afaste de uma religião machista, mas não deixe de ser machista. Ou que não deixe de ser racista, homofóbico, xenofóbico. A lista de preconceitos que a gente pode encontrar entre ateus é bem grande. Ainda assim, essa galera se acha o ápice da racionalidade humana, que todo o atraso se encontra entre os religiosos.

Narciso acha feio tudo que não é ateísta

Sinto dizer que vocês não são melhores do que as pessoas que criticam. Vocês são tão atrasados e desumanos quanto o Silas Malafaia.

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From → ateísmo, feminismo

18 Comentários
  1. O texto reflete tudo o que eu senti hoje à tarde. Parece que você estava presente por ocasião do diálogo que tive com um ateu.

  2. Ray permalink

    Antes de mais nada gostaria de dizer que existem algumas exceções nos “clubinhos de ateus”. Faço parte de grupos que realmente tem uma capacidade quase infinita para discussões interessantes. Porém claro, sempre vão existir grupos como a ATEA para estragar tudo.
    Só não entendo porque o ateísmo, pelo que capturei de seu argumento, deveria estar livre de preconceitos ou ideais ultrapassados. Ateísmo, assim como a religião, não define caráter, nem racionalidade ou nível intelectual. Ateísmo é apenas a falta de crença.
    O que deve vir desatrelado de preconceitos são filosofias como o humanismo por exemplo.
    Por fim gostaria de dizer que li mais alguns textos aqui, e gostei muito do seu trabalho. Continuarei acompanhando.

    • Oi, Ray, vc está certo. Existem exceções honrosas para estes tais clubinhos de que falei no post. E vc está certo tbm ao afirmar que ateísmo não está vinculado a ideais de nenhum espectro político. Não é esse o problema. O problema são os ateus que se acham o ápice da racionalidade humana e são antirreligiosos, colocam a religião como o grande mal do mundo, ao mesmo tempo em que validam discursos nocivos e desumanos como os que falei. Acho isso uma grande contradição. E, na minha opinião, ser um ateu tão desumano quanto o Silas Malafaia não é mérito e me dá uma certa vergonha alheia. Quase como um colega de profissão falando bobagem, sabe?
      Fico feliz que tenha gostado do blog. Beijo

  3. eu não sou ateu, nem religioso, nem agnóstico (que nem sempre são os imparciais, mas sim mais arrogantes que os ateus c/ um papo pseudo-cult se achando simplesmente uma evolução do ateu). Concordo com vc. Mas… ainda é um ponto de vista muito superficial. Tem q olhar mais a fundo e buscar a origem dessa arrogância e aí vc vai entender q essa característica é o menor dos problemas do ateu. O problema é a arrogancia das pessoas que se segregam e isso não é uma característica dos ateus. Isso é uma característica de qualquer pessoa que demanda o reconhecimento da sua “superioridade”, mas frustrada, costuma ir longe demais. Antes se segregavam por motivos de classe, financeiro, ideais, etc. Hoje o ateu sente que pode encher o peito pra falar pq historicamente as INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS só fizeram merda, então ele se da o direito de ser arrogante uma vez que, num país que se predomina culturalmente o cristianismo, ele por contestar essa condição se acha um ativista, revolucionário, superior, etc. Ta na moda ser ateu, na verdade pq é mto facil ser ateu uma vez que ninguem é questão de verdade, e alguns por vaidade levantam a bandeira do ateísmo já que é cool ser ateu. Ser ateu hoje te faz parecer excêntrico, crítico, inteligente, corajoso, revolucionário, erudito, estudioso. Se fosse diferente, ninguém ficaria balburdiando internet a dentro. Pra que? quer (des)evangelizar alguem? duvido. É o orgulho (vaidade) de ser ateu (e td q o confere). Pela sua idade imagino que tenha vivenciado a época das tribos urbanas (gotico vs punk vs nazi vs headbanger, etc), então vai entender meu paralelismo: ateismo é uma tribinho urbana de hoje. Isso chama fanatismo, e por fanatismo pessoas levantam bandeiras, não por ativismo. Chega a ser ingênuo achar, no mundo de hoje, que as coisas são tão simples assim a ponto de identificar 01 problema ao invés de um sistema de problemas de herança histórica.

    Nem todo ateu é chato. Acontece que em todos esses aspectos, não é nada diferente do feminismo (outra neo-tribinho urbana mal embasada, pra variar). É uma forma diferente de repetir todas as mesmas cagadas de um ateu fanático. Definir um movimento pra isso já invalida a causa automaticamente, uma vez que toma-se por verdade que todas as cartas já estão na mesa pra serem discutidas. Um movimento/religião que consegue compilar conceitos de certo e errado sobre o comportamento das pessoas e montar um kit de ideologia, já começa como merda =/. Religiões a, princípio, pregavam boas práticas usando poucos e simples princípios como base. Qdo começou a tomar um FORMATO, ou seja formatou idéias, já era um indício de merda. O feminismo não é diferente, nem o ateísmo. O problema de vcs dois – ateus e feministas (ok, ciclistas tb) – é mais ou menos uma questão de timing: Vcs questionaram. Mas não o suficiente. Se não n seriam fanáticos e ainda estariam se questionando antes de sair pregando as respostas que tomam como verdade absoluta. Quem sou eu pra falar? bom, eu n sei quem ta certo, mas eu continuo questionando, o que me permite ver pelo menos quem está viajando e ambos estão. Moral da história: A opiniões de vcs fanáticos estão baseadas em uma realidade de mentira. Qdo vc entender o quanto a realidade foi distorcida (propositalmente) ao longo do tempo, vai entender também o quão sem sentido é discutir a posição da mulher numa realidade de fachada e porque um deus fake pra uma realidade fake. Agora dps de td isso se vc quiser saber em que time eu jogo pra dizer q o feminismo e o ateísmo são avacalhações similares: A única coisa que eu acredito é o amor. Se vc for capaz de discernir amor de paixão ou letra de pagode, deve entender q isso é o que une as pessoas ao contrário da ideologia moderna segregadora. Não sei se vc vai ter paciência pelo meu texto como eu tive pelo seu, mas pelo menos pude registrar em algum lugar algo q eu nunca vi ninguem falar e achei legal fazer isso. Beijo.

    • Eu li seu texto sim. Sério que vc chama o feminismo, um movimento social global, de “neo-tribinho urbana”? Engraçado vc dizer que feminismo não tem nenhum embasamento, quando a principal crítica feita a ele é justamente ser muito acadêmico. Dá pra apontar onde eu fui fanática? Prq se defender a dignidade e os direitos das mulheres é fanatismo, tem alguma coisa errada.
      Beijo

    • Fernanda permalink

      (vou me meter no assunto haha)
      Olha, uma coisa que eu posso te afirmar com 100% de certeza é que o que o feminismo mais me ensinou foi esse amor aí que você cita, amor que não tem forma nem padrão e que não cabe nas limitadas caixinhas da sociedade em geral.
      E pra quem diz que está apenas questionando, você faz afirmações demais sobre o que, aparentemente, não conhece.

  4. Nossa, quanto fanatismo; pregar que a mulher é um sujeito de direitos como qq outro ser humano é algo realmente atemorizante. Deixa eu dar alt+f4 e sumir de perto dessa terrominista (terrorista+feminista).

  5. Fernanda permalink

    Adorei o blog!
    É tão legal descobrir que apesar de tanto preconceito em tudo quanto é lugar, existem também muitos lugares bacanas pra se discutir ideias (:

  6. Arrasou… Sou feminista, lésbica e ateia, e os ateus andam me envergonhando, e muito!

  7. Tomás Machado permalink

    Pois é, como você mesma disse, a vergonha alheia em relação a boa parte dos ateus é praticamente universal. Sinto isso direto, tá me levando a fazer uma boa limpa nos contatos ateus que fiz nesse tempo todo!
    Curti o seu blog, vou acompanhar! ;D

    • Sei como é. Eu acabei me afastando de algumas pessoas que conheci nesse período tbm. É sempre bom separar o joio do trigo, né?
      Que bom que curtiu. Volte sempre 🙂
      Bj

  8. Talvez a separação dos seres em “ismos”, estranho… Se realmente tenho condições de defender e buscar a liberdade, óbvio que serei sensível a todos os outros, a todas as outras as buscas. Ser livre acarreta numa ética especial (alguns chamam isso de amor). Não são minhas ideologias que definem minha forma de agir – estes “corpos ideológicos” me ensinam, me fazem ver situações históricas – Mas não consigo “ismar-me”. Existe uma ética no amor em geral, isso importa. Quanto às tribos radicais, os ateus que te envergonham, diria que “saíram do mato mas o mato neles permanece”. Ótimo texto, ainda não havia pensado nisso. A ideologia nunca supera a consciência (se a tivermos). abração.

  9. para mim, virar ateia (se bem que acho que sempre fui ateia, como sempre fui feminista, e nunca soube), foi um ato de libertação. o que me incomodava na(s) religião(ões) nao eram os rituais, mas a ideologia. eu simplesmente nao me identificava, e decidi que nao era pra mim. desisti de vez lendo alguns trechos da bíblia, que me aterrorizaram. (aliás, é abraão o nome do rapaz que aceita sacrificar o filho em nome de deus?) viver sobre o meu próprio código de ética, fazendo o que acredito ser o melhor para as pessoas, faz muito mais sentido para mim. mas nao desconsidero que para algumas pessoas ter uma religião pode ser muito positivo. (para algumas pessoas, para mim nem pensar).

    • Eu vou te falar que nunca li a bíblia (paciência: sempre faltou), mas eu participava de alguns fóruns de discussões sobre a bíblia no orkut e era bem legal. Óbvio que rolava uma cambada de ateu babaca como esses que descrevi no texto, mas eu aprendi bastante. De fato, acho que as religiões podem ser positivas para indivíduos e até a sociedade, quando ela incentiva coisas boas. Não é o que acontece no Brasil, com nossa bancada evangélica, com partidos ligados à igreja (PR, da Assembléia de Deus e do Garotinho; e PRB, da Universal e do Russomano) na disputa pelo poder e trabalhando para a sociedade cair no retrocesso.
      Minha crítica aqui a alguns ateus é a mesma que faço a alguns religiosos: que se sintam superiores, mas sejam preconceituosos e retrógrados.

  10. Sarah permalink

    Amei o seu blog, parabéns, Karla T. E sobre ateus que me matam de vergonha, nem preciso dizer nada. Faço de suas palavras as minhas tbm. Bjs.

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