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Da série: mitos sobre o feminismo – final (provisório)

agosto 21, 2012

Conclusão da épica batalha contra algumas afirmações preconceituosas para desqualificar a luta feminista, que comecei aqui e aqui.

“Fim da Lei Maria da Penha! Homens também sofrem violência doméstica, vamos protegê-los!”

Em primeiro lugar, temos que entender que a violência doméstica contra a mulher não se trata de um ou outro caso isolado que só acontece entre gente ignorante. Trata-se de algo generalizado, que ocorre em níveis assustadoramente altos em todas as classes sociais e  em vários países, inclusive os ditos desenvolvidos . Não faz muito tempo, um homem poderia matar a esposa que o traísse sem enfrentar consequências legais, pois isso era considerado um crime passional feito em defesa da honra do indivíduo (mais informações aqui). Outro indicador de que a violência contra a mulher é um mal generalizado e ocorre há muito tempo é que uma das primeiras bandeiras feministas no Brasil foi resumida no slogan “quem ama não mata”. O fato de que isso acontece até hoje e que as pessoas ainda acham natural que um homem mate a mulher por ciúmes é preocupante e indica a necessidade de legislações específicas contra a violência doméstica, uma vez que ela majoritariamente atinge as mulheres. Trata-se de proteger um grupo mais vulnerável a um tipo específico de crime.

Homens e mulheres podem ser ciumentos, mas a questão não é essa. A questão é que durante séculos as mulheres foram consideradas propriedade do pai ou marido. Isso começa quando o cara dá uma surra na mulher para ela aprender a se comportar direito e é levado ao extremo quando um homem entende que até a vida da mulher lhe pertence, de maneira que ele pode decidir acabar com ela ou não. É aquela velha história: “ou ela é minha, ou não vai ser de mais ninguém”. Junte isso a uma sociedade que ensina os homens a resolverem conflitos através de violência e o resultado é o que vemos por aí todos os dias.

É verdade que a violência contra a mulher só vai ter fim quando essa idéia de que somos propriedade de alguém sumir da face da Terra. Mas, até lá, a Justiça não pode fechar os olhos para toda a violência que as mulheres sofrem dentro de seus lares. Em briga de marido e mulher se mete a colher; e ninguém pode se calar!

“Por que o SUS gasta um dinheirão no combate ao câncer de mama, mas pouco faz para combater uma doença que só atinge homens, como câncer de próstata?”

Em primeiro lugar, este é um argumento muito egoísta: basicamente diz que se muitos homens morrem por causa do câncer de próstata, então o certo é deixar as mulheres morrerem de câncer de mama. Ou seja, desculpem a sinceridade, mas quem acha isso é um perfeito idiota.

Mas divago. Já falei um pouco como nossa cultura machista provavelmente influencia para que homens não procurem tratamento para transtornos mentais, ao passo que cometem mais suicídios do que mulheres.

Lista dos fatores sociodemográficos que aumentam o risco de suicídio. Ser homem está entre eles.

Em relação ao caso específico do câncer de próstata, nossa sociedade machista faz questão de relacionar qualquer coisa ligada ao ânus com homossexualidade. E a pior coisa que um homem pode fazer é ser gay (homofobia e machismo são gêmeos separados na maternidade). Todo mundo conhece pelo menos uma piadinha a respeito do exame de toque retal, uma ferramenta essencial para o diagnóstico do câncer de próstata.

E não pense que o governo é bonzinho e se preocupa com as mulheres. Em primeiro lugar, existem políticas públicas voltadas para a saúde do homem.

Assim como as campanhas de prevenção ao câncer de mama, elas fazem parte de uma política mais geral de saúde preventiva. Se hoje os problemas de saúde femininos fazem parte da agenda do Ministério e têm destaque inclusive na mídia, é porque houve muita luta para que nossa vida fosse valorizada. Hoje, já existe incentivo para que as mulheres se consultem periodicamente com ginecologistas desde a adolescência, o que nem sempre foi comum (afinal, “abrir as pernas” para um médico te examinar era coisa de vadia, assim como “levar dedada” para diagnosticar um câncer é coisa de viado).

Ou, pior ainda, de mulher – essa escória da sociedade.

Como já foi repetido milhares de vezes, o machismo aprisiona e mata as mulheres, mas acaba fazendo o mesmo com os homens de uma maneira tão perversa que vocês nem notam. Ou notam e colocam a culpa justamente em quem quer mudar isso.  No final, estamos todos no mesmo barco, oprimidos por pelos mesmos preconceitos arcaicos.

(Sei que pouquíssimas pessoas lêem isso aqui, mas mesmo assim, gostaria muito de sugestões para continuar esta série – que tende a ser interminável…)

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From → feminismo

9 Comentários
  1. não sei se são pouquíssimas pessoas, não.
    pelo menos eu tô sempre aqui, ó! lol

    gostei muito, achei muito bem resumido. aliás, onde vc achou tanta informação sobre o assunto?

    • que bom que vc gostou ❤ quais assuntos? os mitos, em si, eu vi em uma publicação mascu alguns meses atrás. Aí, pra responder, tinha coisa que era óbvia (como todo argumento mascu, né…) e tinha coisa que eu fui googlando. Prova de que o mal de quem se diz anti-feminista é preguiça de pesquisar.

  2. Muito bom o início da série. Gostaria de sugerir o mito de que o feminismo boicotou a pílula anticoncepcional masculina, que foi espalhado pelo Dr. Coutinho. Escrevi sobre isso aqui http://feministacansada.tumblr.com/post/30282610908/o-feminismo-nao-boicotou-a-pilula-anticoncepcional

  3. eduardo permalink

    continuando…

    Mulher(as bandidas e algumas nem tanto) tem sim vontade de matar homens, só não tem coragem e força para fazê-lo. Mas quando as(poucas) condições favorecem…
    Quando isso acontece, entra para as estatísticas como “feminismo mata”? Ou vira mulher psicopata(doente mental com pena reduzida) mata marido?

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