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Femen Brazil e a ameaça do feminismo despolitizado

agosto 18, 2012

O que eu acho do Femen Brazil é que a gente deveria parar de dar atenção a isso enquanto é tempo.

Dito isso, algumas breves considerações. Eu e a Sara Winter temos mais ou menos a mesma idade (ok, confesso que me assusta pensar que ela é mais nova que eu) e, teoricamente, estamos no mesmo lado da discussão sobre feminismo, direitos da mulher e papéis de gênero. E é verdade que as pessoas mudam o tempo inteiro, mas quem tem seus vinte anos de idade muda bastante em pouco tempo. Só que não é bem por aí. Sara representa um movimento que nem de longe está do mesmo lado que eu, ou da maioria das feministas que conheço, porque ninguém sabe que lado é esse em que elas estão. Recentemente, a Lola escreveu sobre o assunto e falou de como o Femen de alguns países vem recebendo críticas relacionadas à xenofobia, por exemplo. Todo mundo de acordo que, na maior parte da Europa, os grandes defensores de políticas xenofóbicas são (no mínimo) de extrema-direita, certo? Certo. Aí aparece uma moça que representa tal movimento aqui no Brasil, que tem um histórico de simpatizar com o fascismo brasileiro e que tem uma cruz-de-ferro tatuada no peito. E o tal movimento se diz apolítico.

É sério.

Não, não é apartidário. APOLÍTICO.

Vou nem entrar no mérito de que uma pessoa que chegou ao extremo de tatuar UMA CRUZ DE FERRO há pouco menos de um ano tem a coragem de dizer que É APOLÍTICA. E, hoje, em 2012, tem a cara-de-pau de dizer que essa tatuagem tem a ver com a cruz dos cavaleiros templários (sim, ela falou isso. Eu ouvi). Galvão, a regra é clara: não importa o significado que determinado símbolo tinha nhenhentos anos antes de Cristo, se você vive no mundo ocidental pós-Segunda Guerra, os símbolos relacionados ao nazismo/neonazismo SÃO NAZISTAS/NEONAZISTAS. E eu sei que isso é meio óbvio, mas nazismo/neonazismo não são movimentos literários, são movimentos políticos.

Enfim, voltando ao Femen…

Gente, vocês me perdoem, mas não tem como um movimento feminista ser apolítico. Pelo menos, na minha cabeça, politizar uma discussão significa que você vai tomar um lado. Você será contra ou a favor de alguma coisa. Claro que, para isso, precisa haver debates e discussões (coisa que o Femen Brazil não faz sequer em sua página de Facebook, quer dizer), mas dentro de uma discussão você acaba se posicionando. Não dá para despolitizar o que é, por definição, político. Aliás, esse é o grande erro que a gente vem cometendo no Brasil e eu espero, de coração, que a Europa não cometa também. É possível (e desejável) fazer parte de um coletivo feminista que esteja fora de um partido político, ou seja, apartidário, mas é impossível fazer um feminismo apolítico.

Sinceramente, deve-se olhar com desconfiança para qualquer coisa, qualquer um que se diga apolítico. E deve-se olhar com desconfiança para alguém que se diz apolítico e, até onde dá pra perceber, não tem história e não tem coerência. Como é que alguém diz que luta por direitos de uma minoria, mas é contra os direitos de outra? Eu acho importantíssimo ressaltar o quanto a religião islâmica pode ser opressora (como o cristianismo e o judaísmo também podem ser), mas daí a protestar contra a presença de mulheres árabes em eventos esportivos como as Olimpíadas é um caminho gigantesco. Pra mim, isso se chama xenofobia. Xenofobia, que é uma agenda tipicamente da direita europeia. Direita, que se encontra dentro de um debate político.

Só para dar um exemplo: aborto está relacionado aos direitos das mulheres. É, portanto, uma discussão política. Aí você tira a política dessa equação e a discussão não chega a lugar algum.

Desse jeito nem tem discussão, né

Não é que tod@ feminista tem que ser de esquerda e se identificar com partidos de esquerda etc. Mas é preciso politizar o debate feminista e quem se identifica como liderança de qualquer movimento feminista deve tomar um lado da discussão. Até porque, em geral, quem fica em cima do muro na maioria das questões políticas tem um lado definido, mas não quer assumi-lo. Esse me parece ser o caso do Femen, que assume uma agenda da direita europeia, coloca uma menina com histórico de simpatizar com o fascismo à frente da organização brasileira, mas quando a chapa esquenta todo mundo foge e diz que nãããão, nada a ver, a gente é contra rótulos políticos e tal.

Nada a ver e tal.

Pra mim, esse é o grande problema no fato de o Femen, desse jeito que ele é formado, tomar uma proporção muito grande no Brasil (o que ainda não aconteceu). E o fato de um movimento em cima do muro e representado por uma menina que tem uma cruz-de-ferro tatuada no corpo ocupar tanto espaço na mídia brasileira não acontece à toa. Não é coincidência que queiram colocar uma organização incoerente e despolitizada como o principal representante de um movimento tão político quanto o feminismo. E aí eu nem responsabilizo o Femen, o Femen Brazil ou a Sara Winter: quem está no topo não quer largar o osso tão fácil; e, pra isso, é essencial manter as pessoas fora do debate político. Esta organização, que abertamente se coloca fora de qualquer debate, não está sendo mostrada pela mídia como a cara do feminismo atual por coincidência. Todo mundo sabe de que lado a mídia brasileira está, certo?

Certo.

Quem presta um grande desserviço ao feminismo colocando uma pessoa incoerente e rasa, que faz parte de uma organização igualmente incoerente, rasa e sem história como grande representante do feminismo, neste momento, é a mídia. Mídia essa que vive se dizendo apolítica, imparcial, etc. etc. etc.

Só para não ser injusta, a Sara Winter vem falando que o Femen é uma organização neofeminista. Mas, novamente, isso não significa muita coisa porque ninguém se preocupou muito em mostrar qual a grande diferença entre o feminismo e o neofeminismo.

Neofeminismo que não tem nada de novo

Usar o corpo como forma de protesto é algo que já ocorre no mínimo desde os anos 60, então não vale. Se dizer neofeminista, pra mim, é só uma forma de se colocar em cima do muro e dar oportunidade pra mídia despolitizar o debate. Aqui no Brasil, pelo menos, a mídia vem se esforçando em enfatizar a nudez das manifestantes – que, opa, virou uma pauta relevante (pra mídia) desde a Marcha das Vadias. Que também é muito criticada, mas pelo menos jamais abraçou definições obscuras, não é um movimento obscuro que fica em cima do muro nas discussões.

É bacana que o Femen atraia gente jovem. Mas é triste e perigoso que as pessoas mais jovens estejam tão desesperadas para escapar do debate político. Porque sempre vai ter alguém para se aproveitar de gente cheia de disposição para agir, mas com pouco entusiasmo para discutir.

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From → feminismo, política

One Comment
  1. Além do que a cobertura da midia sobre as ações do Femen são machistas pra caramba.
    O foco é na exposição da nudez esvaziada de sentido.
    E quando esvaziada de sentido, vira só mais um fetichezinho…
    Mais um peito na TV, não se diferenciando dos peitos do BBB ou das propagandas de cerveja…
    Enfim, é contra producente… Alem de não contestar nada, ajuda a reproduzir a ideologia dominante…

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