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O assustador levante dos conservadores

agosto 14, 2012

Quanto mais um grupo minoritário avança na luta por seus direitos, mais o discurso contra ele se endurece. É esperado. Quem está no topo não quer saber de perder seus privilégios.

Nós estamos, porém, num período em que a voz dos privilegiados faz um barulho ensurdecedor. Eu, otimista incansável, acredito que é porque estamos avançando (devagar, mas estamos). Mas confesso que o barulho é assustador.

Assusta perceber como o governo federal abaixa a cabeça para os fundamentalistas cristãos quando se trata dos direitos dos homossexuais e das mulheres (ah, você acha que fundamentalista é o Ahmadinejad, que enforca os homossexuais no Irã? Tolinho. Coloca um país na mão do Silas Malafaia pra ver o que acontece. A prefeita de São Gonçalo, município do RJ, já vem mostrando como seria). Assusta ainda mais lembrar que os fundamentalistas pautaram a campanha eleitoral de 2010, pavimentando o caminho que acabaria levando a essas concessões vergonhosas que o governo vem fazendo.

Isso aconteceu, gente. Eu vi.

Eu não estou dizendo que entendo e muito menos que concordo com essas decisões retrógradas do governo (o qual eu ajudei a eleger, por sinal). A obrigação de qualquer membro eleito por voto democrático para ocupar um cargo público é defender a Constituição, que nos define como Estado laico. E o fato de uma mulher, a primeira eleita presidenta do Brasil, abaixar a cabeça pra tudo isso me enche de vergonha.

Porra, Dilma.

Mas até mesmo o papel vergonhoso do governo federal pode ser entendido como sinal dos tempos. Não é só no Brasil que vivemos ameaçad@s de perder direitos conquistados com muita luta. Acredito, de verdade, que estamos vivendo um tempo em que os conservadores endurecem cada vez mais o discurso e aumentam o tom de voz para evitar que percam mais privilégios. Tudo bem que isso é esperado. Dificilmente um conservador que está no topo vai abrir mão de seus privilégios por bom senso. O maior problema é que esse retrocesso seja visto como um avanço. Como proteção dos valores morais e familiares. O maior problema é que a sociedade não se una contra os conservadores (afinal, ninguém sai perdendo quando todo mundo ganha acesso a seus direitos).

Uma notícia que me deixou muito triste e reflete esse retrocesso pesado que vivemos é sobre uma mulher do interior de SP que irá a júri popular por ter feito um aborto. Que isso esteja acontecendo no mesmo ano em que o STF declarou constitucional a interrupção da gestação de fetos anencéfalos é emblemático e muito, muito triste. Ou seja, no mesmo ano em que demos um pequeno passo em direção à garantia dos direitos reprodutivos das mulheres, demos um passo gigantesco para trás, em direção ao atraso. Por quanto tempo ainda seremos criminalizadas por exercer nosso direito à escolha?

Porque é isso que o direito a interromper uma gestação voluntariamente se trata. Esqueçam o discurso demagógico dos conservadores a respeito do direito à vida, afinal, a última coisa em que essa galera pensa é na vida. Porque quando falamos do direito ao aborto, é da vida das mulheres que estamos falando. Todos os anos, milhares de brasileiras (pobres, é claro, pois o direito à escolha é garantido pra quem pode pagar por ele) morrem vítimas de abortos clandestinos. A proibição do nosso Código Penal que vigora desde 1940 (!) jamais impediu que abortos fossem feitos. Mas garantiu que os direitos e as vidas das mulheres seriam desprezados.

Gravidez não é obrigação. Não é o preço que se paga por fazer sexo. É uma escolha que cabe apenas à gestante, que é soberana sobre seu corpo. Não se pode colocar uma vida em potencial acima de uma vida de fato, ou seja, os direitos de um ser humano plenamente formado e dotado de consciência não podem ser subjugados em função de algo que pode vir a se tornar humano. Não existe – nem nunca deverá existir – algo chamado “direito do feto”. Isso é uma aberração jurídica que não se sustenta sob nenhum argumento laico – e, de fato, quem mais defende a morte das mulheres são religiosos. Se as inúmeras igrejas cristãs que existem em solo brasileiro (sob a proteção, vejam vocês!, do princípio da laicidade do Estado) determinam que a vida começa na concepção e que somente o deus de vocês tem direito de tirá-la, ótimo. Então as mulheres de suas denominações não podem fazer aborto. Afinal, quem escolheu seguir esses preceitos religiosos foram elas. Mas isso é um argumento religioso que não deve valer para que seja elaborada a legislação de um país. Nenhuma igreja tem o direito de interferir na vida pessoal de quem está fora do seu rebanho, nenhuma igreja tem o direito de cercear a liberdade de escolha de metade da população brasileira em nome de qualquer deus.

Entendam: esta não é uma luta contra religiões. É uma luta a favor das mulheres, a favor de sua liberdade e seus direitos. Agora, é de se pensar o motivo de os maiores opositores a nossa luta serem justamente de religiões cristãs, não?

Jura?

Examinar um pouco da história pode nos ajudar a entender porque isso acontece. No final das contas, e com honrosas exceções, as grandes religiões institucionalizadas sempre estiveram ao lado de quem já está no poder.

A mãe das marchas para Jesus atuais

Católicos contra a vida das mulheres. Os herdeiros da TFP dos anos 60.

O triste mesmo é que tanta gente vem comprando e fortalecendo esse discurso. Mas nós continuaremos a marcar presença.

Um texto maravilhoso sobre o caso de Keila Rodrigues: http://blogueirasfeministas.com/2012/05/a-mulher-que-aborta/

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From → aborto, feminismo

5 Comentários
  1. excelente post, como sempre!
    q bom q vc voltou a escrever. sério. (:

    queria aproveitar o tema pra levantar uma questao.
    uma amiga veio me dizer q o aborto a partir do oitavo mes de gestacao deveria ser proibido porque ai o bebe ja esta quase completo. nesse caso, o estado deveria impedir as mulheres de abortarem porque isso seria um atentado a vida do bebe.

    minha resposta foi que o bebe ainda nao esta 100% completo (alo embriologia! hehe) e que é direito da mulher abortar quando quiser. por outro lado, uma mulher que decide abortar aos 8 meses de gravidez nao pertence a classe alta, do contrario teria abortado antes – até o quarto ou quinto mes. alem disso, ja ha criancas demais para adocao.

    o que vc acha disso?
    beijo

    • Esse post é de junho, estava guardado entre os rascunhos e eu esqueci dele, coitado.
      Sua amiga falou de aborto no oitavo mês ou na oitava semana de gestação? Porque no oitavo mês o bebê já está quase completamente formado (eu mesma nasci com oito meses), então não é realizado um aborto, mas sim um parto antecipado. Imagino que, pra uma mulher decidir que não quer ter um filho quando já está no oitavo mês de gestação, provavelmente é porque nem sabia que estava grávida, ou porque demorou muito pra ter acesso aos serviços de saúde… Por isso é importante que o acesso à saúde seja de todos, independente da renda mensal de cada um 🙂

  2. também acho. atendimento de qualidade a gestante devia ser um direito garantido, e não um privilegio de uma minoria que pode pagar plano de saúde. (expectation x reality ¬¬)

    mas digamos que essa lógica seja levada também para, sei lá, sexto mês. porque tem gente que defende que o bebê aos 6 meses já está formado e nao pode ser abortado. o que vc diria?

    • mas eu acho que aos 6 meses a situação é a mesma, não? Eu acho que o mais razoável é pensar que o aborto pode ser feito até o momento em que o feto/embrião não tem Sistema Nervoso Central formado e não sobreviveria fora do útero. A partir daí, acho que a solução é mesmo colocar para adoção. Mesmo que seja uma solução bem precária… Eu diria que a legalização do aborto tem que vir junto de políticas sérias de controle de natalidade e atenção à saúde da mulher. Aí, o cenário de uma mulher querendo interromper a gestação já com seis meses é bem mais improvável.

      • Caio permalink

        Concordo com tudo q vc disse no texto e com suas opiniões, vc é genial!!!!

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