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Estupro não é brincadeira. Não é piada.

agosto 4, 2012

Dizer que a publicidade de cerveja é, em grande parte, um poço de machismo é tão óbvio quanto afirmar que o céu é azul. Mais óbvio ainda é dizer o quanto a sociedade é tolerante ao machismo que a publicidade cospe na nossa cara todos os dias. Quando criança, uma propaganda de cerveja que envolvia um siri ficou muito popular entre as pessoas da minha idade. Essa popularidade de uma bebida alcoólica entre crianças foi tão grande que logo a publicidade desse tipo de produto foi revista de maneira a evitar coisas semelhantes. Esse absurdo (felizmente) deixou de ser tolerado. Mas, quando se trata de machismo, a tolerância é gigantesca: afinal, as coisas são assim mesmo, tá reclamando de quê?

Machismo em vários níveis

O bom disso tudo é que, felizmente, as coisas não são assim mesmo. Há pouco tempo, até o governo federal fez denúncia ao CONAR contra o infame comercial de lingerie estrelado por Gisele Bundchen – os resultados não foram tão bons, pois o CONAR ignorou a denúncia e, pra piorar, a mídia começou um bombardeio de machismo contra a Ministra Iriny Lopes. Mesmo assim, as mulheres estamos decididas a não tolerar o machismo sendo veiculado em propagandas. Foi assim que conseguimos tirar uma peça publicitária da marca de preservativos Prudence do ar. Foi assim que nos organizamos contra uma das propagandas mais imbecis que já tive o desprazer de ver.

Na propaganda, que já está no ar há meses, um grupo de homens na praia admira duas mulheres bonitas, enquanto bebem cerveja (óbvio, porque só homem bebe cerveja). Um deles pergunta: já pensou se a gente fosse invisível? Corta para as fantasias dos rapazes: os homens invisíveis passam a mão na bunda de uma mulher que vai entrar na água, arrancam a parte de cima do biquíni de outra, entram no vestiário feminino – de onde as mulheres saem desesperadas, correndo e gritando.

Isso é tão, mas tão absurdo que dá uma preguiça só de pensar em começar a explicar. O Código Penal tem um nome pra isso aí que os rapazes invisíveis fazem: estupro. E o nome disso aí que a propaganda faz é apologia ao crime: afinal, retratar um tipo de crime que ocorre cotidianamente entre mulheres (a ponto de o metrô e os trens do Rio de Janeiro terem vagões exclusivos para nós) de maneira leviana, como se não passasse de uma brincadeira, é apologia. Basta pensar em outra situação igualmente grave: imagine se a propaganda retratasse homens invisíveis espancando mendigos como se fosse uma grande brincadeira. Não seria apologia a um crime sério e muito frequente? Ou seja, mais do que propagar o machismo chato de cada dia, o que essa propaganda faz é crime. Afinal, a mensagem é clara: violentar algumas mulheres na praia seria a primeira coisa que esses caras da propaganda fariam se fossem invisíveis (isto é, se as mulheres não pudessem se defender e não houvesse consequências contra eles).

O CONAR disse que, como é impossível alguém ficar invisível, a propaganda não tem nada demais. Eu me arrisco a dizer que os oito homens que fazem parte do CONAR nunca conversaram com uma mulher que pega metrô lotado: lá, o cenário onde um homem desconhecido pode violar o seu corpo e desaparecer sem maiores consequências e impossibilitando que você se defenda é muito real. Na cabeça da maioria dos homens, passar a mão no corpo de uma mulher sem o consentimento dela é só uma brincadeira, não tem nada a ver com estupro, imagina. E a peça publicitária da Nova Schin faz o imenso desfavor de confirmar essa visão torpe em vários meios de comunicação. E, é claro, tem muito homem comentando por aí que toda a comoção em torno dessa propaganda é frescura de feminista chata, já que é tudo brincadeira. Agora, o engraçado é que muitos desses rapazes que defendem a propaganda da Nova Schin com unhas e dentes (estão ganhando dinheiro da empresa?) provavelmente não acharia muito bacana uma peça publicitária em que vários homens invisíveis arrancassem a roupa e passassem as mãos pelos corpos de outros homens. Para quem pensa assim, faço um apelo: sejam mais empáticos! Imagine sua mãe no lugar das mulheres na propaganda, tendo a roupa arrancada e o corpo tocado sem o consentimento dela. Imagine sua irmã, esposa, filha. Porque, acredite, este cenário que não faz parte da sua realidade está muito presente na vida de toda mulher. Inclusive daquelas que você ama.

Para resumir, estamos lutando contra uma empresa que vem fazendo, através de uma peça publicitária, um enorme desserviço à sociedade. Não, ninguém acha que alguém vai se tornar um estuprador porque a propaganda de cerveja disse que isso é bacana. A questão é outra. A questão é que não precisamos de mais pessoas, mais meios de comunicação dizendo que estupro nem é um crime tão grave. Não precisamos de uma voz tão poderosa reforçando que violentar uma mulher não passa de brincadeira, afinal, os homens são seres imaturos e incapazes de controlar seus impulsos. Essas ideias cruéis já causam estragos demais sem uma propaganda para torná-las ainda mais fortes. A mídia está muito presente nas nossas vidas para isentá-la de qualquer responsabilidade sobre os danos que ela pode causar (ou, no mínimo, ajudar a manter) à sociedade. A Nova Schin é responsável e exigimos que isso seja dito, exigimos retratação. A empresa vem tentando abafar nossa revolta e calar a nossa voz. Tolinhos. O tempo em que suportávamos caladas tamanho absurdo já acabou.

Este post faz parte de uma blogagem coletiva contra a propaganda de cerveja. Como a Nova Schin é uma cerveja horrível, vai ser fácil boicotá-la. Não sei se alguém vai ler este post, mas vale registrar os canais onde estão sendo feitas as denúncias:

Ouvidoria da Secretaria de Políticas para Mulheres: ouvidoria@spmulheres.gov.br

Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR): http://www.conar.org.br/ – basta clicar na parte de “Reclamações” ali em cima.

Ouvidoria do Ministério Público do RJ – http://www.mp.rj.gov.br/portal/page/portal/Internet/Cidadao/Ouvidoria_Geral Eu fiz uma denúncia de apologia a crime há alguns dias e ela foi considerada inconsistente. Quer dizer. Acho que vale a pena fazer uma pressão maior, hein? Não esqueça de anotar o número da denúncia para que ela seja acompanhada.

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From → feminismo

2 Comentários
  1. Ana permalink

    Por favor, onde eu posso levar uma denuncia sobre apologia ao estupro através de piadas? Ouvi dia 24 numa rádio local, e fiquei abismada. Entrei em contato e disseram que se tratava de um programa humorístico e eles têm autorização do MP para brincar com essas coisas!!! Eu fiz denúncia por email no MP mas não dá para acompanhar se vão fazer alguma coisa. Tem outros meios? Obrigada!

    • Hm, não sei te informar muito bem… Na última vez que fiz denúncia por isso, eu recebi um número de protocolo para acompanhar a denúncia.

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