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A era pré-revolução das mulheres

junho 27, 2012

Comecei a ler o clássico livro de Betty Friedan, “A Mística Feminina”, no último dia 25 de junho. Tenho o péssimo hábito de não terminar os livros que começo, mas espero que com este seja diferente. Junto com “O Mito da Beleza” e “Backlash”, este clássico é um dos livros que muita gente considera essenciais para se entender os rumos desta revolução das mulheres. Pretendo escrever um pouco sobre cada capítulo.

É claro que esta não é uma resenha acadêmica. Não tenho a menor pretensão de me considerar uma estudiosa do assunto, embora, nos últimos tempos, meu interesse em fazer pesquisa na área tenha aumentado muito. Pena que não existe tempo para estudar tudo que eu quero. O que eu vou falar aqui vem das minhas próprias observações pessoais, que podem estar (muito) erradas. Minha intenção é apenas registrá-las para que eu as organize melhor.

Friedan começa falando do mundo da americana de classe média dos anos 50, a era dourada do capitalismo dos EUA, mas um período negro para as mulheres. Como muitos homens tinham ido para o front de batalha e a demanda por produtos industrializados para apoiar a guerra só aumentava, as mulheres foram forçadas a trabalhar fora de casa e assumir os papéis que até então haviam sido dominados apenas por homens. Não à toa, a clássica imagem da operária arregaçando as mangas e declarando que “nós somos capazes!” é dessa época.

Também conhecida como Rosie the Riveter

Em 1945 a guerra chegou ao fim. Metade do mundo industrializado estava destruída e milhões de pessoas haviam perdido suas vidas. Os homens voltaram para os EUA e as mulheres que passaram a trabalhar fora de casa foram demitidas de seus empregos. Mas é claro que este breve período de libertação havia deixado marcas profundas na maneira como as mulheres se enxergavam e no futuro que elas desejavam.

Para variar, assim que os EUA saíram da Segunda Guerra, eles entraram em outro conflito, mas contra a União Soviética: a Guerra Fria. Em resumo, os EUA lideravam o bloco capitalista do mundo e a URSS, o bloco comunista; e os dois blocos competiam indiretamente, fosse através da corrida tecnológica (especialmente no campo das viagens espaciais), fosse ideologicamente. Ou seja, cada país se esforçava bastante para aumentar as vantagens de seus sistemas sócio-econômicos, ao mesmo tempo em que denegria tudo que fosse do outro bloco. Bom, é claro que grande parte desse conflito ideológico dependia de uma corrida armamentista, em que os dois países se armavam até os dentes, mas, como sabiam que um conflito direto seria devastador, exibiam a própria força fomentando guerras e golpes de estado em outros países. A idéia era: minha ideologia é melhor que a sua e se, você não concorda por bem, vai concordar por mal.

A chapa esquentando no Vietnã

Mas vamos nos concentrar no conflito ideológico. Como eu disse, havia um grande esforço dos dois lados para provar qual sistema era superior. Embora a URSS tenha ficado famosa por sua propaganda estatal, os EUA fizeram a mesma coisa. Um dos garotos-propaganda do sistema capitalista era o Ronald Reagan, presidente dos EUA por oito longos anos e herói dos conservadores e neoliberais. Além de dizer que o capitalismo era um sistema perfeito e justo, os americanos investiram muito em deixar a população com medo. E a propaganda era tão, mas tão eficiente que as pessoas começaram a ficar paranoicas e enxergavam monstros comunistas até debaixo da cama. Ou seja, qualquer coisa que ameaçasse o sistema vigente era visto como comunismo. Por isso, os anos 50 ficaram famosos pelo McCarthismo, ou caça às bruxas, que foi uma perseguição implacável contra tudo que parecesse ser comunismo.

O feminismo era visto como cria indesejável do comunismo porque levaria à desmoralização da mulher e à destruição da família tradicional, que era vista como um dos pilares da sociedade americana. Ou seja, a destruição da família seria apenas o começo da destruição da bela e harmônica sociedade capitalista. Usando esse argumento, conseguiram um retrocesso gigante nas conquistas femininas: por exemplo, desde os anos 30 o número de mulheres que cursavam o ensino superior sempre aumentava, enquanto nos anos 50 esse número caiu. As mulheres pararam de estudar porque conseguiram convencê-las de o lugar delas era em casa, cuidando da família nos seus afazeres domésticos. E isso era uma coisa nobre! Afinal, se a família tradicional era a base da sociedade, as mulheres eram responsáveis por construir a sociedade inteira! É claro que não bastava apenas ser dona-de-casa e cuidar das crianças (sempre no plural, porque o papel mais nobre de uma mulher era ter filhos. A taxa de natalidade média praticamente triplicou nos anos 50). Para ser completamente realizada, para ser realmente feminina, a mulher tinha que cuidar dos filhos, da casa, ser compreensiva (leia-se submissa) ao marido, tinha que ter a cinturinha fina e os quadris largos, tinha quer se loira e ter o cabelo sempre arrumado, a maquiagem impecável, os vestidos mais bonitos, os saltos mais elegantes. E, é claro, fazer isso tudo com um sorriso no rosto por ser uma mulher completa!

Se você não fosse assim…

… Isso ia acontecer.

Como eu disse, e Friedan corrobora através de dados, a propaganda maciça funcionou. As revistas femininas se limitavam a dar dicas para ter a aparência perfeita e agarrar o homem dos seus sonhos, que te faria uma mulher completa. Depois de casada, as revistas te ensinariam a continuar linda, a agradar o homem na cama e cuidar bem dos seus filhos do berço até a faculdade. As mulheres acreditaram tanto nisso que muitas se casavam assim que terminavam a escola, ou faziam um curso superior “de mulherzinha” apenas enquanto esperava arranjar um marido. Aquelas que já tinham curso superior abandonavam tudo para se dedicarem à família; e as poucas que saíam de casa arrumavam empregos que não exigiam tanto tempo, mas também não tinham um plano de carreira, apenas com o objetivo de ajudar a mandar os filhos para a faculdade, por exemplo. A mulher nunca era realizada por si só se não agradasse à sociedade cumprindo seu papel, que era o de agradar outras pessoas, isto é, seus maridos e filh@s. Sem el@s, a mulher era sempre incompleta e estava fadada a ficar insatisfeita com a própria vida.

Então as mulheres acreditaram nisso e fizeram o que era esperado delas. Foram convencidas que se tornariam felizes e realizadas assim. Mas, na realidade, a história era completamente diferente. Muitas mulheres passaram a frequentar consultórios de psiquiatras, pois se queixavam de uma angústia gigantesca, aparentemente infundada, um mal que era característico das donas de casa. Angustiadas, medicavam-se o tempo inteiro com os tranquilizantes disponíveis à época, que não aplacavam a inquietação. Elas tinham tudo que garantiria a felicidade e a satisfação. Então, por que não estavam felizes e satisfeitas?

Friedan coletou depoimentos de mulheres muito diferentes entre si, mas com ocupações e angústias semelhantes. Mesmo morando em lugares muito diferentes dos EUA, mesmo com níveis educacionais muito diferentes, com histórias muito diferentes, as queixas eram quase sempre as mesmas. Como mulheres, estavam presas a uma existência em função de outras pessoas. Elas existiam para a família, nunca para elas próprias. Aquelas que tiveram a oportunidade de explorar talentos tão diversos quanto música, poesia, artes ou ciências se viam desperdiçando suas habilidades nas tarefas rotineiras da vida doméstica que nada tinha a ver com seus interesses. Aliás, mesmo dominando habilidades muito diversas e complexas para administrarem todas as funções domésticas, elas jamais eram reconhecidas como pessoas hábeis. Jamais disseram que elas podiam sonhar com outra coisa e conquistar o que desejavam. Mas elas sabiam que não estavam limitadas aquilo. E isso incomodava. A mera idéia de estarem insatisfeitas com o papel natural que elas exerciam era extremamente aversiva para grande parte das mulheres, tanto que elas sequer falavam sobre isso entre si. Mas, mesmo tendo sido convencidas de que não havia outro mundo possível para elas, as mulheres já haviam experimentado a liberdade. Intimamente, as americanas de classe média sabiam que era possível desejar outro mundo: o mundo inteiro.

Ou seja, o primeiro capítulo se resume a explicar o contexto em que ocorreu a explosão do feminismo nos anos 60. E, enquanto eu lia isso tudo, pensava ao mesmo tempo no longo caminho que percorremos, em todas as conquistas que tivemos; mas também pensava que não somos totalmente livres. Décadas se passaram e nós continuamos aprisionadas aos papéis que, dizem, são naturais. A impressão que tenho é que na era pré-feminismo dos anos 50, éramos como prisioneiras acorrentadas a uma parede, incapazes de sequer nos levantarmos para olhar a luz que vinha de fora da cela. Hoje, tenho a impressão que andamos com pesadas bolas ferro presas a nossos calcanhares. A forma de nos aprisionar mudou e a propaganda se tornou tão entranhada na sociedade que sequer percebemos que se trata de uma reação conservadora com o objetivo de, assim como nos anos 50, nos colocar em nossos “devidos lugares”. Caminhamos sempre em frente, na direção do futuro, mas nunca totalmente livres.

Pense em todas as revistas femininas de maior circulação no Brasil. Elas ainda vendem que o objetivo maior de toda mulher é arranjar um namorado ou marido (depende da faixa etária para a qual ela é vendida). Elas ainda vendem que nosso maior papel na vida é de decoração, de enfeitar o ambiente como belas estátuas. As capas estampam mil e uma maneiras de mantermos a beleza física, que é cada vez mais irreal, cada vez mais dependente de processos invasivos para ser alcançada. Toda as dicas de comportamento estão relacionadas a como agradar um homem, seja fazendo o sexo mais incrível da vida dele, seja como a namorada perfeita que entende todos os anseios masculinos e jamais cobra nada dele. E, sinal dos tempos, dicas para conciliar trabalho e família – esta dobradinha que cabe apenas a nós, nunca aos homens. Não quero dizer que essas coisas não podem fazer parte da vida das mulheres. Mas quando foi que nos limitamos a isso? Quem disse que essas são as mulheres que queremos ser?

Revista feminina. Mas bem que poderia ser propaganda de uma guerra. Contra nós.

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2 Comentários
  1. post muito, muito bom!

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