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O que é cultura do estupro e porque todo mundo tem a ver com isso

junho 19, 2012

Vamos pensar o seguinte cenário: um homem está andando pela rua e vê uma mulher que chamou sua atenção. Achou bonita. Ela apenas anda pela mesma rua, mas na direção oposta à do cara que sequer tinha visto. Quando passam um pelo outro, o homem fala, em alto e bom som para ela ouvir: “Ô, gostosa! Te chupava todinha!”. O homem continua seu caminho, ainda olhando para trás, de modo a admirar a bunda da moça; e está exultante. A moça continua andando de cabeça baixa.

Isso, amigos, NÃO É FLERTE. Para ser flerte, é necessário que haja interação social, um diálogo (verbal ou não verbal) e as pessoas precisam estar receptivas ao flerte. Nada disso acontece naquele cenário hipotético (que é muito real para milhões de mulheres brasileiras). A situação oposta foi retratada por um comediante português:

Pelas reações, aposto que nenhum dos homens abordados se sentiu elogiado ou feliz com a situação. Bom, adivinhem só: a maioria das mulheres também NÃO se sente assim!

O que aconteceu naquele meu exemplo hipotético é que o homem deixou bem claro que tinha o poder para julgar o corpo da mulher e verbalizar isso como bem entendesse. Porque o corpo da mulher não pertence a ela. Nossa sociedade ensina os meninos a fazerem isso desde sempre, sob a alegação de que estão sendo ensinados a serem homens. Homens têm o poder de invadir o espaço de uma mulher com grosserias e até mesmo o poder de invadir seu corpo, seja falando grosserias e passando a mão na bunda de uma desconhecida ou cometendo um estupro.

Quando uma feminista critica essas cantadas porcas que ouvimos nas ruas desde crianças, somos acusadas de “castradoras”. Faz-me rir. Enfim, dizem que queremos impedir que os homens olhem os corpos das mulheres na rua, ou mesmo que se sintam atraídos por esses corpos. (Note: existe apenas o corpo atraente, com o qual você faz o que quiser; não existe um ser humano completo chamado mulher). Quando, na verdade, queremos que nosso espaço seja respeitado. Queremos caminhar tranquilamente em qualquer lugar sem nos preocuparmos se algum machão viril vai exercer seu direito de invadir nosso espaço pra nos dizer cantadas porcas. Isso, se tivermos sorte. Afinal, vivemos sob o medo constante de um deles resolver que vai invadir também nossos corpos.

Esta, amigos, é uma das facetas da cultura do estupro. Uma cultura perversa que ensina as mulheres a evitarem o estupro, mas não ensina os homens a não estuprarem. Isso é importante, pois a maioria dos estupros não é cometida por sociopatas que agarram mulheres sozinhas em ruas escuras. A maioria dos estupradores são namorados, vizinhos, parentes e conhecidos da vítima. Alguns deles nem acham que estão estuprando porque, afinal, apenas sociopatas fazem essas coisas. Quando, na verdade, tudo que é feito depois que a menina diz que não quer fazer é estupro. Ou tudo que é feito quando ela bebeu demais e está desacordada, ou com a consciência tão prejudicada que é incapaz de dizer sim ou não.

Então, por um lado, os homens são ensinados que devem ter poder, inclusive sobre os corpos das mulheres. Nós somos algo ao qual vocês tem uma espécie de direito natural. Aprendem que algumas mulheres são mais estupráveis que outras (as que usam roupas provocantes, são sexualmente liberadas, consomem bebidas alcoólicas). E, acima de tudo, aprendem a não ter empatia por mulheres estupradas porque elas certamente se encaixavam no grupo das estupráveis e mereceu.

De outro lado, as mulheres são ensinadas a ter medo. Um medo que aprendemos desde cedo, quando estamos entrando na puberdade e ouvimos grosserias vindas de homens muito mais velhos e mais fortes fisicamente que nós. A postura que aprendemos a ter é passiva, pois se enfrentarmos, algo pior pode acontecer. Ouvimos de nossos pais que precisamos tomar cuidado para que nada de mal nos aconteça. Passamos a ter medo de andar sozinhas à noite, de beber demais perto de desconhecidos, de enfrentar os mal-educados que insistem em falar grosserias na rua. E se nos estuprarem, levaremos a culpa. Por ter andando naquela rua escura, por ter bebido, por ter dito não a um namorado que não soube aceitá-lo, porque ele tinha o direito de usar o teu corpo. Nós também aprendemos a julgar a vítima.

Muita gente insiste que a grosseria na rua e o estupro são coisas diferentes. Mas não são. São comportamentos gerados pelas mesmas premissas originadas pela cultura do estupro. Para ilustrar isso, vamos representar esta cultura do estupro como um continuum: em uma das extremidades da linha, está o ponto mais leve, que pode ser entendido como o machão viril que assedia verbalmente desconhecidas na rua. Na outra extremidade, temos o estupro de fato. Entre os dois pontos, diversos tipos de agressões de cunho sexual que uma mulher pode sofrer. Ou seja, os dois comportamentos são apenas faces da mesma moeda. São apenas maneiras pelas quais homens reafirmam seu poder sobre as mulheres.

Outra crítica que recebemos ao levantar uma discussão sobre cultura do estupro e argumentar, é que estamos vilanizando os homens e dizendo que todos são estupradores em potencial. Obviamente, isso é mentira. O problema é que a cultura do estupro realmente nos ensina a temer TODOS os homens, pois não se sabe de onde virá a ameaça e precisamos estar alertas para nos proteger.

Portanto, homens, da mesma maneira que quando se fala de racismo, não estamos falando sobre ou acusando indivíduos; quando se fala em cultura do estupro, não estamos acusando ninguém. Não adianta responder, indignado, que nunca estuprou ninguém, então não deve ser responsabilizado ou acusado pelas ações de sociopatas. Na verdade, estamos pedindo ajuda para acabar com um problema. Porque o medo que sentimos é encarado como um assunto estritamente feminino, com o qual os homens nada têm a ver. E não deveria ser assim. Acabar com uma cultura de violência deve ser uma bandeira de tod@s nós.

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From → feminismo

2 Comentários
  1. Nathalia Bravim Rocha permalink

    Parabéns! Você traduziu em palavras todos os meus sentimentos e revoltas!

Trackbacks & Pingbacks

  1. A chapa esquenta, o macho afina e empresa tira o corpo fora « Escritos Feministas

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